sábado, 17 de setembro de 2011

Filosofia e senso comum



Filosofia e senso comum

Não raro, a filosofia também se põe como um conjunto de idéias, uma doutrina e, nesse sentido, se parece com a ideologia. E muitos confundem uma com a outra quando ambas assim se apresentam, como doutrinas. Todavia, a filosofia, isto é, a filosofia que não se corrompeu em ideologia, não se apresenta “na frente”. Ela é o que vem “por trás”. Não que esteja escondida. Ela vem por trás por uma razão simples, a filosofia é uma atividade racional, e só podemos usar da razão de modo explicativo e como  fornecedora de boas justificações, quando os fatos já se passaram e quando o discurso histórico, ao menos em parte, já se fez.

“A Coruja de Minerva levanta vôo ao entardecer”, escreveu Hegel. Exatamente: só depois que há a história, então, ao final do dia, a razão passeia sobre tudo e fornece seu veredicto, tornando tudo que é insano, louco e sem sentido, em algo com algum sentido – o que se pode explicar aparece, e o que se pode compreender ganha vida. Esse trabalho da razão, o de dar sentido, não é senão o trabalho da filosofia. A filosofia vem depois, vem tardiamente, vem por trás, não tem como vir pela frente.

A coruja é ave de rapina, precisa enxergar todo o terreno à noite, caso queira conseguir alimento. Deve ver longe e de modo bem amplo, e não pode errar a rasante e não pegar sua presa. Nada tem a ver com as outras aves pequenas. O pardal acorda cedo e sai para revirar o esterco. Come bichinhos do esterco, mas quando perguntado por outros animais sobre o que é seu alimento cotidiano, vive dizendo que são bons pedaços de pão da mesa dos humanos. A coruja é a filosofia, o pardal, a ideologia.

O senso comum mais ou menos cru toma a filosofia e a ideologia como doutrinas. E há verdade nisso. São doutrinas. Mas não de modo absoluto. O senso comum não é analítico e, então, não fazendo o trabalho de distinguir o joio do trigo (alguns gostariam de dizer, crítico), engole indistinções que não se deveria engolir de modo algum. Então, nãovê que se em algum momento a filosofia e a ideologia quase se igualam, ao serem doutrinas, ainda assim elas não podem ser tomadas como a mesma coisa. Pois há a doutrina da coruja e há a doutrina do pardal.

O senso comum não acredita que é necessário, a todo o momento, fazer distinções. Ele não aprendeu a lição dos filósofos medievais, que diziam que quando encontramos uma contradição, o que temos de conseguir esboçar é uma distinção. Sendo assim, ele toma ideologia e filosofia como doutrinas e não vê as características da primeira como bem distintas da segunda. Por agir assim, sem grandes preocupações com a distinção, sem achar que contradição é algo que não pode ser engolido, ele é mesmo o senso comum, o pensamento que tem dificuldade em se engajar na filosofia. Não raro, ele está envolto na ideologia e imagina estar fazendo filosofia.

Encontramos boa parte dos professores, jornalistas, médicos etc. totalmente imersos em ideologias. Eles acreditam que só os não escolarizados vivem sob o domínio do senso comum, e que eles próprios funcionam segundo o aparato dado pelo pensamento crítico, livres da ideologia. Todavia, talvez isso que dizem já seja, então, uma ideologia. Afinal, é o que vem na frente – é a primeira coisa que dizem, quando querem se distinguir dos outros. Caso seja assim, então imaginam estarem endossando, de modo esperto, filosofias. Podem não estar. E nesse caso específico, talvez não estejam mesmo. Por não se preocuparem em fazer distinções, e então ver em que poderiam ser ou não diferentes dos não muito escolarizados (“o povo”), eles próprios podem estar apenas no campo do senso comum.

Aliás, diga-se de passagem, esse tipo de intelectual acaba mesmo se envolvendo em uma ideologia específica, que é a que endossa a idéia de que o senso comum é o “pensamento ingênuo”, e que o “homem do povo” ou “o povão” é sempre enganado, ludibriado exatamente por se manter na ingenuidade.

É claro que a proteção contra a ideologia é o uso da razão. Todavia, temos de nos lembrar que o uso da razão, a racionalização de tudo, pode também ser ideológica.


Um comentário:

luciana-goyaz disse...

Dei uma passadinha aqui para ler, refletir e desfrutar um pouco da sua intelectualidade. Adorei. Abraços fraternais e sincera amizade.