sábado, 25 de abril de 2009

AOS ESTUDANTES DE HISTÓRIA

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AOS ESTUDANTES DE HISTÓRIA

Não devemos deixar de nos engajar nos transmites políticos da instituição que pretende nos formar. Todo historiador só será digno deste rótulo ao ser participante ativo da história. Não estamos nessa somente para narrarmos a história dos outros. Somos os próprios atores e autores da história. E na nossa formação acadêmica não vejo como estar de fora da política que rege nosso aprendizado.

Como pretensos historiadores temos o privilégio de nos atermos aos momentos históricos que formaram nosso sistema educacional, portanto temos o dever de construirmos desde já, um melhor sistema que cumpra com os deveres de se criar um país, e por que não um mundo menos alienado, e mais voltado para a educação do cidadão. Por isso espero que este ano de 2009, seja propício a isto.

Pense positivo!

sábado, 18 de abril de 2009

Um pouco de Cultura Nordestina em expressões

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Um pouco de Cultura Nordestina em expressões

Sair um pouco de temas sérios é sempre bom! Por isso, resolvi compartilhar um texto super interessante de dialetos que comumente é falado aqui pelo nosso Nordeste e também na nossa querida Alagoas desde a capital e entrando por todo o seu interior. O texto expressa situações de fala dos cearenses em específicos, mas pode muito bem ser aplicado a todos os estados vizinhos e situações ao seu redor, note-se, menos no que diz respeito a "botar boneco", isso é tipicamente cearense.


Cearense não briga... ele risca a faca!
Cearense não vai em festa... ele cai na gandaia!
Cearense não vai com sede ao pote... ele vai dicumforça!
Cearense não vai embora... ele vai pegá o beco!
Cearense não conserta... ele dá uma guaribada!
Cearense não bate... ele senta o sarrafo!
Cearense não sai pra confusão... ele sai pro balai de gato!
Cearense não bebe um drink... ele toma uma!
Cearense não joga fora... ele rebola no mato!
Cearense não discute... ele bota boneco!
Cearense não é sortudo... ele é cagado!
Cearense não corre... ele faz carrera!
Cearense não ri... ele se abre!
Cearense não brinca... ele fresca!
Cearense não compra garrafinha de cachaça... ele compra um celular!
Cearense não toma água com açúcar... ele toma garapa!
Cearense não calça as sandália.... ele calça as opercata!
Cearense não morre... ele bate a biela!
Cearense não exagera... ele alopra!
Cearense não percebe... ele dá fé!
Cearense não vigia as coisas... ele pastora!
Cearense não vê destruição... ele vê só o distroço!
Cearense não sai apressado... ele sai desembestado!
Cearense não observa... ele passa os pano!
Cearense não agarra a mulher... ele arroxa!
Cearense não dá volta... ele arrudêia!
Cearense não serve almoço... ele bota o dicumê na mesa!
Cearense não diz fulano não é de confiança... ele diz a mercadoria é sem nota!
Cearense não espera um minuto... ele espera um pedaço!
Cearense não é distraído... ele é avoado!
Cearense não fica encabulado... ele fica todo errado!
Cearense não comete gafe... ele dá uma rata!
Cearense não sobe na arvore... ele se trepa no pé de pau!
Cearense não passa a roupa... ele engoma a roupa!
Cearense não ouve barulho... ele ouve zuada!
Cearense não acompanha casal de namorados... ele segura vela!
Cearense não dá cantada... ele quêxa!
Cearense não é esperto... ele é desenrolado!
Cearense não é rico... ele é estribado!
Cearense não é homem... ele é macho ou é cabra danado!


Em outro post trago mais!

sábado, 11 de abril de 2009

A HISTÓRIA VIVE
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A HISTÓRIA VIVE

A História sempre foi cultivada por todas as sociedades, pois, preocupa-se com o Homem, seu passado, seu presente e futuro.

Importância da História

Precisamos estudar História como o ar que respiramos: pois, ela está sempre presente, mesmo sem a gente perceber. É como o mar, sempre em movimento. A História é rica, agitada, viva e dinâmica que empenha as criaturas na luta por melhores situações e não no saudosismo de outras eras. É Cheia de alegrias e dores, bem do jeito das pessoas que aqui vivem. É movida pela força dos grupos humanos, com caras, hábitos e interesses diferentes. Se pensarmos, por exemplo, na História de nosso Brasil, veremos que ela vai sendo construída entre o silêncio, festas, prisão, paixões, tiroteios, carinhos, ódios. Na verdade, o grande personagem da História, somos todos nós, seres humanos.

Desta forma é preciso ficar alerta, porque, de modo geral, as pessoas associam a palavra “HISTÓRIA" (do grego HISTOR – aquele que viu que testemunhou um acontecimento) a uma lista de datas, fatos, nomes de grandes personagens, quase que uma lista telefônica exclusiva de pessoas importantes.

Não há homem sozinho, e o que ele construiu, realizou, sonhou ou perdeu, aconteceu em conjunto, com outras pessoas e em determinadas circunstâncias da época.

Assim, fica claro que a História não é o saber das coisas velhas, mas o Homem preocupado com seu destino, sua origem buscando entender, dominar e superar sua realidade. A justa compreensão do sentido histórico faz o homem alguém, integrado em seu tempo, ao contrário do suposto pelos cultivadores da disciplina, apenas para endeusar a pátria, a religião em práticas distorcidas e condutoras da falsificação de todo o tipo. Quem não está em sintonia com sua época não pode entender outras épocas.

É dentro desta visão da História que precisamos refletir, por exemplo, como foram 'celebrados' os 500 anos de História do Brasil. Será que podemos afirmar que são apenas 500 anos de História? Que fato utilizou-se para começar a contar os ditos "500 anos" dessa História? Por que iniciar em 1500? E antes?

Não permitir essa reflexão é desconhecer a História, portanto, é dar outro "sentido" aos acontecimentos, é “endeusar" o fato, fazendo com que o povo e os nossos alunos continuem a ver apenas a história do Herói e do Vencido. É Reafirmar que o brasileiro é 'manso' e não resiste.
E, no entanto, nosso Brasil está aí mergulhado na injustiça, na violência, na desigualdade social, em episódios que nos deixam indignados.

A História Vive. Façamos deste momento forte da História, uma reflexão e não uma 'reprodução' como muitos meios de comunicação e escolas estão fazendo.

Pense nisso e reflita!

sábado, 4 de abril de 2009


Feliz primeiro de abril em xeque

Feliz primeiro de abril
Você sabia que o dia da mentira tem tudo a ver com o ano novo? Conheça essa incrível história! Você já sabe que pregar peças é uma tradição no chamado dia da mentira. Descubra agora de onde vem esse costume!

Feliz ano novo?
A instituição de primeiro de abril como o dia da mentira tem suas raízes na celebração do ano novo. Ué, mas o ano novo não começa no dia primeiro de janeiro? Pois é. Só que nem sempre foi assim.

Antigamente, o ano novo era celebrado em março, no dia em que ocorre o chamado equinócio. Nessa data, a posição do Sol em relação à Terra faz com que a duração do dia seja igual à da noite. Esse fenômeno ocorre em 21 de março – ou 22, nos anos bissextos – e marca o início da primavera no hemisfério Norte e do outono no hemisfério Sul.

No passado, o final de março era marcado por uma série de festividades que faziam a despedida do ano velho. O primeiro dia útil do ano ficava sendo, então, o primeiro de abril. Viu como era diferente?

Um nó na cabeça!

Mas onde entra a parte da mentira nessa história? Imagine só: você certamente está acostumado a celebrar o ano novo na passagem de 31 de dezembro para primeiro de janeiro. De repente, um comunicado avisa que a festa foi transferida para junho. Não ia dar uma confusão na sua cabeça? Pois foi mais ou menos isso o que aconteceu!

No ano 44 antes de Cristo, foi elaborado o calendário juliano, no Império Romano. Uma das mudanças instituídas por ele foi a transferência do início do ano para primeiro de janeiro. Só que, na prática, não foi bem isso o que aconteceu. “Como a informação não circulava, cada aldeia fazia do seu jeito e muita gente continuou a celebrar o ano novo em primeiro de abril”, conta o astrônomo Alexandre Cherman, da Fundação Planetário da Cidade do Rio de Janeiro.

Já em 1582, o papa Gregório XVIII ordenou que passasse a ser utilizado o calendário gregoriano. Nele, o ano novo também era celebrado em janeiro. Mas, dessa vez, a teoria iria ser posta na prática, pois um decreto do rei da França deixou bem claro: o ano novo deveria passar a ser festejado em janeiro.

O dia dos tolos
Só que algumas pessoas continuaram insistindo em manter a celebração em primeiro de abril. Começaram a ser chamadas de tolos. Muitos debochavam delas, já que agora o primeiro de abril era uma grande mentira! Por causa disso, a data ficou conhecida como o dia da mentira ou o dia dos tolos, como é chamada nos países de língua inglesa.

Com o passar do tempo, desenvolveu-se o hábito de pregar peças e contar mentiras no dia primeiro de abril nos países da Europa e nos colonizados por europeus, como o Brasil. Essa tradição continua valendo nos dias de hoje, quando nem pensamos mais na possibilidade de começar o ano em outra data!

Gostou da história? Então, que tal contá-la aos seus amigos? Só não se esqueça de avisar que não é piada de primeiro de abril, senão eles não vão acreditar!

Outros dias
Até hoje o ano novo é celebrado em outras datas em algumas culturas. “A escolha do dia primeiro de janeiro para marcar o início do ano é uma convenção”, explica Alexandre Cherman, da Fundação Planetário do Rio de Janeiro. “Tanto que em outros calendários, como o judaico e o chinês, o ano começa em uma data diferente."


Bastante interessante não?

sábado, 28 de março de 2009

HISTÓRIA DAS MENTALIDADES
A chamada História das Mentalidades é um ramo da teoria da história.

Esta variante da História salienta o sentimento de pertença a uma determinada comunidade que reconhece as mesmas vivências, reforça e entrelaça os fenômenos culturais e sociais e o conjunto de hábitos e atitudes. Ao mesmo tempo, através dela compreende-se e interpreta-se melhor a cultura dos outros.
É considerada uma análise de tipo mais profundo da História, pois visa perscrutar e compreender as grandes alterações nas formas de pensar e agir do Homem ao longo dos tempos. Inscreve-se no chamado tempo longo (a longa duração), de teor essencialmente estrutural e que atua nos diversos fatores de uma sociedade. Tem implicações na política, na sociedade, na economia, na cultura, na filosofia e na religião. Enquadra cada complexo histórico-geográfico e determina-o profundamente, não obstante, por sua própria natureza, não ser evidente discernir o que pertence especificamente a uma época e o que constitui permanência.
As suas repercussões são multidirecionais e aplicam-se ao homem como indivíduo, ser pensante e intelectual, à família, aos grupos, às comunidades, às nações. Entra igualmente no domínio do público e do privado, revelando para cada época sensibilidades e vivências próprias no relacionamento com os outros.
Por ser do domínio do tempo longo, a perspectiva temporal é fundamental para seu estudo. Devido à sua abrangência intrínseca, permite ampliar o conceito de documento, extravasando em muito o mero documento escrito de cariz oficial. Os atos inconscientes são tão ou mais importantes que a formalidade dos decretos e das ordens régias; a Arte, a Literatura, os costumes, os ritos, a religião são manifestações fundamentais para revelar a consciência auto-reflexiva que o homem tem de si numa determinada época.
Com a história das mentalidades, a elaboração histórica deu um salto qualitativo, quer em termos científicos quer no concernente ao seu ensino. A História Nova de Marc Bloch foi a grande impulsionadora da história das mentalidades. Um outro grande impulsionador desta teoria foi o filósofo e epistemólogo francês Michel Foucault, ligado à psicanálise.
A história das mentalidades é um meio de compreensão dos mecanismos sócio-históricos sobre um pano de fundo onde os conceitos elaboram-se a partir dos estados mentais de grupos coletivos.
Desse modo, as manifestações que estão ligadas ao amar, lazer, morrer e viver num sentido de desvelar os discursos. Para além do óbvio visando uma inteiração entre o antropológico, a sociologia e a psicanálise. Em que a autoridade, tradição e passado está ligado a investigação multidisciplinares.
Para compreender a história das mentalidades é preciso fazer uma remontar aos séculos XIX e XX, onde conceitos estabelecidos pelo historiador Leopold von Ranke que idealizava uma história tradicional, política voltada à biografia dos reis, foi contestada mais tarde por Marc Bloch e Lucien Febvre que, em busca de uma história-problema e de uma história do cotidiano fundaram a "Revue des Annales", em torno da qual se estabeleceu a chamada Escola dos Annales.
A história das mentalidades teve como destaques principais dois historiadores que com suas obras mostraram o pensar e o agir na História do mental: Bloch editou "Os Reis Taumaturgos", uma obra comparativa entre crença e autoridades dos Reis e Febvre publicou "O Problema do Ateísmo no Século XVI: a religião de Rabelais" onde defendia a tese da História ser uma forma de estudo interdisciplinar.
Apesar de estudar o modo de agir e pensar do indivíduo a História das mentalidades estava ficando "fora de moda" e os historiadores não gostam de ser tratados e rotulados como “historiador do mental” e a partir de meados da década de 1980, na França, esse tipo de análise histórica já estava sendo reformulada, dando lugar a sua principal herdeira, a Nova História Cultural.

sábado, 21 de março de 2009


Identidade e Imaginário do Nordeste na obra de Luiz Gonzaga

Antes tarde do que nunca. Finalmente, Luiz Gonzaga, DNA não apenas da música nordestina, mas da MPB como um todo, terá uma homenagem por aqui mais uma vez onde desempenho estudo temático com ênfase no Imaginário e Identidade do Nordeste na obra de Gonzagão. Inclusive por aqui no blog já dediquei post ao nosso querido Lua, só é conferir.

O rei do baião pode ser considerado um dos primeiros popstars brasileiros. As inúmeras turnês que fez pelo Brasil comprovaram a identificação do público com sua obra.

Pioneiro, Luiz Gonzaga foi responsável pela sistematização de uma série de elementos visuais, rítmicos, melódicos, comportamentais e poéticos que construíram um formato autêntico e rico de cultura regional nordestina facilmente reconhecível até hoje.

O Brasil conheceria menos o Nordeste sem ele. Com seu chapéu de couro e a bandoleira de cangaceiro cruzada no peito, ele espalhou os ritmos e o jeito de sua terra mundo afora. Mas o próprio Nordeste talvez conhecesse menos o Nordeste sem o gênio que resumia naquela figura celebérrima de sanfoneiro. Autor de sucesso como
Asa branca, Juazeiro, Assum preto e Último pau-de-arara, Luiz Gonzaga, o Gonzagão, não foi apenas a voz que fez falar o sertão silencioso. Assim como o Brasil conheceria menos o Nordeste e o Nordeste conheceria menos a si mesmo, também o Brasil, sem ele, conheceria menos o Brasil.

Até uma próxima vez!

domingo, 15 de março de 2009

PANORAMA E PERSPECTIVAS SOBRE O ENSINO DA HISTÓRIA

Sempre questiono o porquê do ensino da História. São tantas datas, fatos, “heróis”, lugares e contextos que parecem que não servem para muita coisa, além de base para questões do vestibular. No entanto, há um erro muito grande nessa afirmação anterior, quem disse que História se limita às datas, aos fatos, aos supostos heróis, aos inúmeros lugares e contextos?

Não podemos fugir desses pequenos “detalhes”, no entanto limitar o ensino da História a isso é mais ou menos fazer com que os nossos alunos saião da escola especializados nessa disciplina. Fracamente, qual seria o sentido disso? Pode ser bastante útil para o vestibular, que está começando a mudar esse sentido meramente informativo, no entanto não tem utilidade nenhuma para a vida.

Esse deve ser ponto central do ensino da História, a vida, pois nos esquecemos que a História é feita por homens e mulheres que também tiveram 13, 15,17 ou 23 anos um dia, que também tiveram dúvidas, desejos e escolhas. Esses Seres Humanos entraram para a galeria da História porque em algum momento – para bem ou o mal – fizeram escolhas e certamente saíram do lugar comum e assumiram a História em suas mãos.

Meus caros, entre tantas outras utilidades que a História nos serve – e veremos isso ao longo do ano – uma das mais importantes é nos fazer entender que nós somos os únicos responsáveis pelas nossas vidas e por nossas escolhas, não quero dizer que somos uma ilha, porém precisamos tomar a História em nossas mãos, não para fazermos parte de livros, mas para modificarmos nossas próprias vidas e – por que não? – estimular um pouco a mudança na vida das pessoas que amamos ou daquelas que precisam.
Aos que ainda acham que História é apenas uma “decoreba”, que se limita ao passado, sinto decepcionar, porque ao longo desse ano em sala de aula e no Blog veremos que ela está muito longe disso, pois além de nos ajudar a viver melhor, ela pode ser um divertido passatempo.
"A educação faz um povo fácil de ser liderado, mas difícil de ser dirigido; fácil de ser governado, mas impossível de ser escravizado.”
(Henry Peter).

domingo, 8 de março de 2009


TRIBUTO

A MINHA “IRMÔ - UMA GRANDE MULHER

Passados quatro anos da tua morte, julgo que já é tempo de te prestar a minha homenagem.

Partiste num pranto de dor, apenas junto daqueles que realmente te amavam. Nos últimos dias da tua existência via em ti alguém que queria partir e que já tinha sofrido o suficiente.

Mais uma vez quebro a rotina do blog em temas temáticos para entrar no universo da memória e desta forma homenagear uma grande e excepcional mulher: dona Maria de Lourdes, ou simplesmente Dona Lourdinha, em cujo sobrenome (Santos) impõe-se a marca da grandeza da mulher nordestina.

Viveu, Dona Lourdinha, 59 anos de intensas atividades diversificadas tais como doméstica, comerciante, educadora e também como administradora de uma prole que só lhe deu alegrias e muito orgulho. Pudera! Sempre soube impor a ela o verdadeiro sentido do amor ao próximo e que a honradez e a dignidade são os maiores valores que alguém pode exibir em sua vida. Sua vida inspirou exemplos dignos, fidalgos da primazia a grandeza.

Dona Lourdinha a exatos quatro anos nos deixou órfãos. Partiu para o plano superior. Serena, consciente de que nenhum dos seus rebentos, muito mais sucedâneos, seqüenciarão na conformidade do que ensinou ou nutriu, o sonho que sempre acalentou no sentido de que a harmonia familiar continuará como exemplo maior que se pode legar.

Com Luiz Correia dos Santos, mais conhecido como seu Luiz de Dom, seu companheiro e marido (cuja existência é exemplo de honradez e caráter).

Construiu um particular mundo que pode ser descrito como um recanto onde se adensaram nas belezas da cidade de Delmiro Gouveia, localizada na região sertaneja alagoana. Nascida no então estado de Pernambuco, ela e seu Luiz de Dom – também nordestino, só que alagoano -, mantiveram no município uma primorosa residência onde abundavam harmonia e felicidade mutua.

Braço direito do marido, enquanto este se dedicava a vida de comerciário e comerciante, ela administrava vamos dizer assim a propriedade e, concomitantemente, tratava da educação e formação da cidadania dos três filhos – Lucineide, Luciano e Lucielma -,simbolizando o resultado exitoso de sua missão de mulher e mãe exemplar, sem falar dos vários agregados que por lá viviam onde um desses no qual me refiro sou eu mesmo.

Dona Lourdinha é, no sentido mais representativo da dedicação e do amor, o exemplo, também, mais eloqüente de que vencer na vida é via de conseqüência resultante de competência materna.

Eu gostava de ouvi-la. Dona Lourdinha sempre tinha na ponta da língua uma palavra de conforto e de equilíbrio, todas as vezes que instada a se pronunciar sobre questões do cotidiano. Ou da própria vida. Era sábia, realista e mantinha uma linha de filosofia de vida. Dinâmica, estava sempre ocupada com assuntos sérios. Solidária, nunca entendeu como sacrifício, correr em socorro dos outros.

Não duvido de milagres. Sou um sujeito pragmático. Entretanto, creio que para o comum dos mortais o céu está muito distante ou impossível de ser alcançado. Mas para Dona Lourdinha, criatura diferenciada, o céu, sim, ela já mereceu. De lá das alturas, continuará olhando para os seus com o mesmo fervor, todavia com muito mais força e poder, porque está ao lado de Deus.

Dona Lourdinha nunca deixou de manifestar a sua crença nos milagres. Induvidoso é que se alcançou esse lugar privilegiado nas alturas, não foi por milagres. Foi por mérito. Deus é justo.

Ao contemplá-la no seus últimos dias de vida, me assaltou um sentimento de profunda tristeza, ao mesmo tempo de revolta, porque pessoas como ela jamais deveriam morrer. A mesma coisa me ocorreu quando vi um dos meus outros irmãos, se preparando para ganhar outra dimensão.

Dona Lourdinha foi uma extraordinária mulher, irmã, mãe. O que mais marcou a sua personalidade foi a humildade, o amor ao semelhante, a palavra de perdão e o profundo sentimento religioso. Faz-me uma falta imensa.

Mas o vazio que essa heroína, Dona Lourdinha, nos deixa com sua partida definitiva, é realidade inquestionável: jamais será preenchido.
Os dias festivos, as datas comemorativas marcarão, para sua família, ainda mais a sua ausência. Era ela quem cuidava de reunir filhos, genros, nora e netos em torno de si.

Dona Lourdinha representou e honrou o verdadeiro sentido da palavra família.
Sua saudade será eterna para aqueles que aprenderam a verdadeiramente amá-la.

Um grande poeta contemporâneo certa vez escreveu: “O valor das coisas não está no tempo em que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis” – Fernando Pessoa. Esta citação nos dá a grandiosidade do ser humano imaginado e representado como identidade da mulher que todos nós gostávamos e que agora de uma maneira fantástica está no patamar lá de cima nos guiando com o aprendizado que nos foi dado ainda aqui em vida.

A linha de conteúdos nesse blog inicialmente em sua elaboração era trazer posts interessantes com temas que de uma maneira ou outra envolvesse o nosso cotidiano citando a cultura, identidade e memória, e hoje trago a tona um ensaio que a muito vinha se construindo, que é a memória da lembrança em vida de minha irmã que representou muito na nossa caminhada.

Ela partiu nos deixando órfãos em uma terça-feira, oito de fevereiro do ano de dois mil e cinco, ficando ali a certeza que o melhor de maneira brilhante tinha se manifestado. Nossa casa ficou vazia, sem a sua presença, deserta do seu convívio. Porém em nossas vidas ficará as marcas imorredoras de sua bondade que será lembrada eternamente em nossos corações, brotando preces para o descanso eterno da sua alma. De repente, os sonhos, a luta, os planos, a vida, tudo se foi, de agora em diante, só saudades pelo vazio que você deixou.

A morte criou um lugar no meu coração maior do que quando eras viva, pois só aí me apercebi plenamente da tua importância para mim.

Termino esta minha homenagem com uma promessa e uma certeza: nunca te esquecerei, estarás sempre no meu coração!

Aí de cima, não deixes de olhar por nós e de nos ajudares.

Com muito amor e saudade. Valeu Dona Lourdinha!!!!!!!!!!!!!!!!


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

HISTÓRIA: CONCEITOS

Entre um post e outro volto a falar tematicamente de História.

"O importante não é tanto relatar fatos passados ou enumerar acontecimentos que podem ser localizados geograficamente e datados cronologicamente, mas sim, mostrar que em cada momento os homens estão produzindo uma realidade cultural." (Neidson Rodrigues)

Captar as diferentes formas como os homens concebem a vida e transformam-na em diversos momentos históricos, como se relacionam entre si e com a natureza são objetivos do ensino de História, que permite ao aluno ter uma maior compreensão da sua realidade, pelo confronto com as demais, percebendo as rupturas e permanências e reconhecendo-se como sujeito histórico, ativo no processo de aprendizagem.

Entendendo por sujeitos históricos indivíduos, grupos, classes sociais, participantes de acontecimentos de repercussão coletiva ou situações cotidianas na busca pela transformação ou continuidade de suas realidades, valorizam-se o indivíduo ou os grupos anônimos, enquanto protagonistas da construção de suas histórias, e não meras sombras dos feitos heróicos dos grandes personagens.

Por isso, a disciplina de História não pode e não irá reduzir-se unicamente a informações sobre o passado, mas:
●passar aos alunos a concepção de mundo, a visão de realidade que imperava nas diversas épocas;
●fazer os alunos entenderem que as relações sociais de produção, as relações de trabalho e as relações com o mundo, são responsáveis por impulsionar uma determinada época na busca de alternativas;
●fazer com que percebam que foram as condições da época que permitiram determinadas ações;
●captar as conseqüências dos fatos históricos em termos do desdobramento do conhecimento científico e técnico que o mundo conheceu a partir destas ações.

Para a compreensão de que, por trás de um fato relatado, existem as relações sociais, econômicas, políticas e culturais que o produzem, recorre-se a uma multiplicidade documental que abrange não só o escrito e institucional, mas também os filmes, os artigos de jornais e revistas, as imagens, os relatos orais, os objetos e os registros sonoros.

O contato com esta diversidade de fontes possibilita ao aluno perceber as diferentes temporalidades existentes simultaneamente e/ou ao longo da história, reconhecendo também sua realidade como múltipla, conflituosa e complexa, encarando o conhecimento histórico não como uma sucessão de fatos no tempo, mas sim como ações humanas organizadas transformadoras de um dado momento.

Tendo em vista tal proposta, o intercâmbio com conceitos trabalhados por outras disciplinas torna-se imprescindível para que o aluno, em confronto com novos procedimentos de reflexão e análise, desenvolva a capacidade de interpretar características da sua realidade e relacione-as com às informações históricas. Desta forma, o aluno passa a ter uma dimensão mais ampla e significativa dos conteúdos específicos da área, enriquecendo o seu conhecimento e passando a ter subsídios para construir o seu próprio saber

A reflexão sobre a relação entre os acontecimentos e os grupos, tanto os do presente quanto os do passado, a prática da pesquisa e a convivência com diferentes métodos de abordagem favorecem a formação de um aluno crítico, reflexivo e consciente do seu papel enquanto cidadão.

As atividades que deverão ser realizadas pelos alunos e que constituem a estrutura do curso são: leitura e análise de textos; resumos, pesquisas e redações; discussões em painéis; transposições de linguagem; testes de revisão e avaliações.

Mantendo a perspectiva curricular de integração sistemática com disciplinas afins, o curso de História tem como objetivo levar o aluno a desenvolver as seguintes habilidades:
●analisar a época em que vive, situando-se diante dos problemas atuais, com base numa visão de evolução econômica, política, social e cultural da humanidade;
●identificar o sentido dos diversos aspectos de nossa herança cultural;
●aplicar os conhecimentos adquiridos à realidade brasileira, a fim de melhor interpretá-la, e nela atuando;
●expor idéias de forma clara e compreensível nas atividades e avaliações propostas.
Até a próxima!

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Lição de Sabedoria de Vida (de um velho índio)

Achei muito interessante este texto, de uma Sabedoria muito profunda e atual. Através de lendas, anedotas, historias aparentemente simples, que passam de geração em geração , esses mestres antigos – como este velho índio – nos trazem uma lição de Vida tão valiosa.

Uma noite, um velho Cherokee contou ao seu neto sobre uma batalha que acontece dentro das pessoas. Ele disse: "Meu filho, a batalha é entre dois "lobos" dentro de todos nós.

“Um é Mau - é a raiva, a inveja, o ciúme, a tristeza, o desgosto, a cobiça, a arrogância, a pena de si mesmo, a culpa, o ressentimento, as mentiras, o orgulho falso, a superioridade e o egoísmo”.

“O outro é Bom - é a Alegria, a Paz, a Esperança, a Serenidade, a Humildade, a Bondade, a Benevolência, a Empatia, a Generosidade, a Verdade, a Compaixão e a Fé”.

O neto pensou naquilo por alguns minutos e perguntou ao Avô : Qual o lobo que vence ?

O velho Cherokee simplesmente respondeu : O que você alimenta.
Bastante interessante não? Pense nisso!

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

O que é o estudo de História nos bancos escolares?

É o que nos conta o texto abaixo tendo como ponto de partida a idéia de que a finalidade do conhecimento histórico é propiciar o desenvolvimento das forças transformadoras da História, colaborar com essa conscientização, com o movimento de se relacionar o passado e o presente, em busca de respostas para questões eternas: quem somos, para onde vamos, de onde viemos, para onde queremos ir.

A História é uma área do conhecimento humano preocupado com a compreensão do passado. Buscando em fontes que relatam o passado, procura dar sentido às ações do homem com a intenção de dar resposta a questões do presente. Dessa forma, esse campo de conhecimento oferece um instrumental útil e necessário para que possamos enxergar em uma perspectiva mais profunda o mundo que nos rodeia.

Além de oferecer mais conhecimento, a História tem a interessante capacidade de remontar o passado de formas completamente diferentes. O historiador vai até o passado com um conjunto limitado de perguntas e documentos que o permitem fazer “apenas” uma forma de compreender um determinado período de tempo. Por isso, não podemos encerrar a compreensão de qualquer fato na obra de um único estudioso.

Grosso modo, as primeiras linhas de estudo da História se desenvolveram nas cavernas, quando os primeiros grupos humanos se preocupavam em registrar o desenrolar de sua própria vida cotidiana. Na Antigüidade, os primeiros historiadores se preocupavam em relatar as peripécias dos grandes personagens e o cenário épico das guerras travadas entre os povos. Muitas vezes, comprometidos com algum dos lados dessa história faziam um relato tendencioso e impreciso.

Na verdade, não podemos mesmo pensar que o historiador deixa suas preferências de lado na hora de trabalhar com o passado que lhe atrai. No entanto, durante muito tempo, o estudo da História se mostrou espalhado em relatos desprovidos de algum tipo de rigor que garantisse algum tipo de objetividade. A partir do século XVIII, observamos a proposição de alguns pensadores que tentaram dar critérios mais rígidos no estudo da História.

Nessa corrente, temos a ascendência de um ideal em que o historiador teria a capacidade de falar do passado sem interferir o conhecimento com suas opiniões pessoais. A partir de então, os fatos históricos começariam a ser julgados com base na importância maior dos fatos de ordem política e econômica. Restringindo com bastante força outros temas de análise histórica, esse tipo de perspectiva veio a perder força somente no decorrer do século passado.

Atualmente novos temas vêm tendo bastante força no campo dos estudos históricos. A História oral, a Micro-história e a História Cultural são alguns dos novos campos de atuação dessa área do conhecimento. Tendo caráter fortemente reflexivo, a História possibilita a criação de um espírito crítico capaz de elucidar uma relação mais interessante do homem com a realidade que o cerca.

Tudo de bom e até a próxima!

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

MEU DESEJO EM XEQUE

Quando minha hora chegar, não tentem introduzir em meu corpo, uma vida artificial, usando uma máquina. Ao invés disso, dê minha vista para o homem que nunca viu um sol nascente, um rosto de bebê ou amor nos olhos de uma mulher. Dê meu coração para uma pessoa de que o próprio coração causou nada mais que, últimos dias de dor.

Dê o meu rim para aquele que depende de uma máquina para existir de semana a semana...

Pegue meu sangue, meus ossos, todos músculos e nervos do meu corpo e ache um meio de fazer uma criança aleijada andar. Explore todos os cantos do meu cérebro. Pegue minhas células, se necessário, e deixe-as reproduzir e algum dia, um garoto que fala pouco estará apto para gritar enquanto seu time marca gol e uma garota surda ouvirá o som da chuva contra sua janela.

Queime o que restar de mim. Espalhe as cinzas para o vento, para as flores crescerem.

Se você quer mesmo enterrar alguma coisa, deixe minha falta, minha fraqueza e todos os meus preconceitos contra meu semelhante. Dê meus pecados para o diabo e minha alma para Deus.

Se você for querer lembrar de mim, faça-o com certa façanha, ou fale com alguém que precise de você.

Se você fizer tudo isso que eu pedi, eu viverei para sempre.


Texto inglês de autor desconhecido.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009


UM POUCO DE CULTURA NORDESTINA
Sair um pouco de temas sérios é sempre bom! Por isso, resolvi compartilhar um texto de expressões populares muito comuns aqui pelo Nordeste.

O humor da língua do povo

O folclorista pernambucano Liedo Maranhão pode se considerar um felizardo: faz parte da restrita tribo dos que se divertem trabalhando. A mais divertida pesquisa feita por Maranhão trata do linguajar nordestino. Paciente, ele coletou centenas de frases criadas pela imaginação popular. Há um traço comum nas frases: a maioria traz comparações pontuadas pela expressão “que só”. Eis um pequeno mostruário das frases que Maranhão colheu na boca do povo:

“Enfeitada que só bicicleta de pobre”
“Tremendo que só pudim”
“Mole que só folha de jornal no sereno”
“Animado que só ajudante de missa”
“Comendo gente que só areia de cemitério”
“Por fora que só quarto de empregada”
“Tremendo que só cotovelo de violinista”
“Liso que só garrafa ensaboada”
“Bom que só dinheiro achado”
“Atrapalhado que só cachorro em procissão”
“Por dentro que só água de coco”
“Sofrido que só pé de retirante”
“Brabo que só guarda-noturno”
“Comprido que só explicação de gago”
“Passeando que só pitomba em boca de velho”

Compilação: Almanaque Fantástico
Edição especial/novembro 2005/Editora Globo.

domingo, 4 de janeiro de 2009

Resumo do livro "A Invenção do Nordeste e Outras Artes", de Durval Muniz de Albuquerque Júnior

“O Nordeste é um recorte regional muito recente para ter qualquer tradição”.

Por quê? Nas 317 páginas de “A invenção do Nordeste e Outras Artes” (Cortez Editora, 1999. São Paulo), livro basilar para compreensão e interpretação da produção artística e cultural realizada ao longo do século XX sobre a região se questiona tantas definições. Por que se aceita e venera com tanta intensidade o Nordeste da seca, dos santos beatos, dos tipos festeiros, do batuque do maracatu e cadência do pífano? Por que o Nordeste aceitou tão facilmente a carapuça regionalista? São muitas as perguntas, muitas as dúvidas e desafios também. No resumo a seguir, o pesquisador discute as muitas feições que o Nordeste tem assumido ao longo dos tempos. A conferir

Estamos diante de um livro denso, rico de idéias, uma abordagem interessante sobre o surgimento da região Nordeste na “Paisagem Imaginária” do País no final da primeira década do século XX em substituição a antiga divisão regional do país entre norte e sul; porém, uma região fundada na “Saudade e na Tradição”.

O pesquisador e historiador Durval Muniz de Albuquerque Júnior, é doutor em História pela Unicamp e titular da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Seu texto analisa de forma poética (o eu-lirico do autor aflora magistralmente no enredo em alguns momentos) e científica (pelo rigor da analogia e do método utilizado para mostrar-nos a fantasiosa simbologia criada para este espaço) a evolução de uma região do Brasil, situando-a no conjunto dos mecanismos constitutivos de um projeto de bases culturais e sociais diversificadas.
O autor busca compreender o conteúdo e as modalidades da ação dessas bases culturais, as especificidades dos agentes, os princípios norteadores de sua intervenção, analisando as determinações mais amplas da regionalização e diversificação dessa cultura.
O trabalho apresenta-se organizado em três partes.
No primeiro capítulo, o autor reconstrói, a partir do estudo ”Geografia em Ruínas” (P.39), o desenvolvimento histórico que nos possibilitara a compreensão de toda essa montagem do mosaico do espaço Centro Sul e o Antigo Norte.
Inicialmente, é abordado a eminência de um novo regionalismo, onde se busca enfatizar as mudanças significativas ocorridas nestes espaços nos idos do século XX. De um lado o Centro Sul despontando como centro cultural notável e também centro glamoroso e financeiro do país, com transformações substanciais em todos os âmbitos; do outro, o Antigo Norte, por sua vez, vivenciando também essas mudanças; porém, com a sinonímia da pouca expressividade cultural (não que a região fosse desprovida de cultura; pelo contrário, era riquíssima em todos os aspectos, só que, todos os investimentos e atenções estavam voltados para o Centro Sul), da dependência e submissão.
Porém, é plausível destacar também que, pela primeira vez será discutido a questão do espaço; embora se perceba, um olhar diferente e até depreciador, dependendo do espaço. Vale salientar que, essa idéia de discutir a importância do espaço social passa a ter um significado maior a partir da primeira guerra mundial. Ora, a política desencadeada na Europa sempre refletiu em nosso país; diga-se passagem, com muita intensidade. Portanto, a primeira guerra mundial será o anúncio oficial da digladiação dos países europeus economicamente fortalecidos em busca de espaços. Pois, o capital industrial se expandia e precisava urgentemente apropriar-se de espaços para o escoamento dessa produção e conseqüentemente dominá-los. Neste sentido, será inventado o Nordeste que, terá a mesma função destes espaços “conquistados” pelos capitalistas europeus dominantes. Só que tem um detalhe, no nosso caso será em relação ao Centro Sul.
No que tange a questão da importância do espaço Nacional Brasileiro, vejamos o que afirma o autor, quando é analisado o espaço do Norte e do Sul: “seja na imprensa do Sul, seja nos trabalhos intelectuais que adotam os paradigmas naturalistas, seja no próprio discurso da seca, o Norte aparece como uma área inferior do país pelas próprias condições naturais (...)” (P. 69).
Portanto conclui-se o capítulo tocando na questão do fator natural (clima) e o étnico (raça). E além do mais, é dentro dessa vertente que, será moldada a região Nordeste que irá substituir “a antiga divisão regional do país entre Norte e Sul”.
No segundo capítulo, Durval Muniz procede com a analogia da questão regionalista; desta vez dando ênfase ao espaço no aspecto cultural e político. Grosso modo, o espaço em epígrafe será o nordestino que a partir de então, irá romper com essa dualidade Norte/Sul.
Na análise do espaço nordestino, observa-se que, o plano cultural será mais enfatizado do que o político; embora, não descartemos esse último, pois, o texto deixa transparecer que aquele discurso disperso de outrora da classe dominante da região, agora tem outra conotação: prima em mostrar as rupturas e desigualdades existentes em relação ao Centro Sul. No entanto, os flagelos da seca e da miséria fortalecem esse discurso, causando até mesmo impacto no plano nacional.
Quanto à abordagem cultural, ela é mais incisiva; pois, através das análises sociológicas e antropológicas da região frente ao naturalismo, observa-se a preocupação de vários estudiosos em mostrar e explicar as fissuras sociais existentes naquele espaço.
Dentro desse contexto, o autor é brilhante quando afirma que “é o saber sociológico, preocupado com as questões sociais e culturais, que vai assumindo um papel de suma importância na definição de uma identidade para o brasileiro e para o Brasil, bem como na definição de suas regiões e de seus tipos regionais” (P.93).
Nessa prosa gostosa, chegamos aos “Territórios da Revolta” que será o objeto de estudo do terceiro capítulo do trabalho de Muniz.
Nesse capítulo é analisado o conjunto de idéias de Nordeste, gestada por vários escritores e artistas que comungavam e até militava em partidos de esquerda.
Para o autor, o trabalho desses intelectuais define-se como um serviço de reconstrução da região Nordeste.
Como ele mesmo é enfático em dizer: “a imagem e o texto do Nordeste passam a ser elaborados a partir de uma estratégia que visava denunciar a miséria de suas camadas populares, as injustiças sociais a que estavam submetidas e, ao mesmo tempo, resgatar as práticas e discursos de revolta popular ocorridos neste espaço (...) as terríveis imagens do presente servem de ponto de partida para a construção de uma miragem futura (...)” (184).
Desse modo, a nosso ver, o trabalho do professor Durval Muniz, como instrumento de análise e alerta de uma região marginalizada pelos donos do poder, pode ser incluído dentro de uma perspectiva redentora e valorativa da cultura e do espaço nordestino. Como ele mesmo afirma que, “o Nordeste é uma produção imagético-discursivo formada a partir de uma sensibilidade cada vez mais especifica, gestada historicamente, em relação a uma dada área do país. E é tal a consistência desta formulação discursiva e imagética que dificulta, até hoje, a produção de um nova configuração de ‘verdades’ sobre este espaço” (p.49).

Palavras-chave: Nordeste, regionalismo, história social
Até o próximo artigo!

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Resenha de “Um Apólogo”, de Machado de Assis

Resenha de “Um Apólogo”, de Machado de Assis

Foi-me pedido o resumo desse pequeno conto na escola na qual trabalho para a realização de uma feira literária, mas, espere ai, eu sou professor de História e não de Língua Portuguesa ou de Literatura, mais isso já vem fazendo parte do meu dia-a-dia no universo do qual escolhi como oficio de professor e não custa nada em servir mostrando as outras habilidades existente no nosso conhecimento. Nada melhor do que passá-lo a todos, não é mesmo? Chego a confessar que foi muito prazeroso e gratificante. Assim, todos veremos a qualidade do grande escritor e ícone da Literatura brasileira do século passado e do mundo contemporâneo Machado de Assis. Segue o conto:

UM APÓLOGO

ERA UMA VEZ uma agulha, que disse a um novelo de linha:
— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma coisa neste mundo?
— Deixe-me, senhora.
— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.
— Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.
— Mas você é orgulhosa.
— Decerto que sou. — Mas por quê?
— É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu? — Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu, e muito eu?
— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados...
— Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás, obedecendo ao que eu faço e mando...
— Também os batedores vão adiante do imperador.
— Você é imperador?
— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto...

Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser. Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana — para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:
— Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco? Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima. A linha não respondia nada; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte; continuou ainda nesse e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile. Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E quando compunha o vestido da bela dama, e puxava a um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha, para mofar da agulha, perguntou-lhe:
— Ora agora, diga-me quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá. Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha:
— Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico. Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça: — Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!

Resenha:

Percebe-se, ao final deste conto, a observação da história por um “professor de melancolia”, isto é, um mestre na arte da conformidade, da indiferença, do desgosto, que diz estar servindo de agulha a muita linha ordinária, isto é, tem aberto caminhos, aberto oportunidades pra ele mesmo e, depois dele, se seguem pessoas com o intuito de se aproveitar do que ele faz. Hoje em dia há muitos conformados com a situação em que estão, e continuam fazendo as coisas só pra os outros se beneficiarem, sendo que esses últimos, que só querem se beneficiar existem aos montes, procurando tomar o lugar dos que avançam na vida. Temos de ser, assim, como os alfinetes, que não abrem caminhos pra ninguém, mas alcançam seus objetivos. Não há maneiras de se aproveitar destes. Com certeza, subiremos na vida dessa maneira, e cresceremos sem “encostos” à nossa volta.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

VOCÊ NÃO PRECISA PENSAR, ESTAMOS FAZENDO ISSO POR VOCÊ.

Você não precisa pensar, estamos fazendo isso por você.

Há uma decadência da inteligência. A individual e a coletiva. A inconsciente que dirige o instinto de sobrevivência e a consciente que dirige a faculdade de entender e aprender, de julgar e por tanto de distinguir entre o Bem e o Mal. Paradoxalmente somos menos inteligentes do que éramos quando não sabíamos voar para Marte. Ou reimplantar um braço, trocar um coração, clonar uma ovelha ou nós mesmos. Somos menos lúcidos, menos despertos que quando não tínhamos aquilo que serve ou deveria servir para cultivar a inteligência. Quero dizer, a escola acessível a todos é mais obrigatória, tem mais abundância e mais rapidez de informações, Internet, tecnologia para ensinar e não o faz. Há mais bem-estar para todos. Quando não havia, cada um precisava cuidar-se por si mesmo. E esforçava-se para raciocinar, pensar com sua própria cabeça como afastar o frio, mitigar a fome. Hoje não. Para todas as pequenas coisas a sociedade já propõe uma lista de soluções. Decisões já tomadas. Pensamentos já elaborados e preparados para serem utilizados. "We are thinking for you. So you dont have to". A gente já não pensa. Ou pensa sem pensar com sua própria razão.
Oriana Fallaci. A força da Razão. 2004. compilações.

SUCESSO NA VIDA?

SUCESSO NA VIDA?

Todos temos no decorrer de nossas vidas as mesmas dificuldades: a capacidade de consumo e o sucesso escolar dos filhos nos preocupam mais ou menos nos mesmos termos, além do desemprego que os ameaça, e até em nossas relações intimas temos globalmente as mesmas experiências, encontros, desencontros, separações, casamentos fracassados ou não, guarda de filhos, adolescentes difíceis, pais que estão envelhecendo, amigos em dificuldades, acidentes na vida...As coisas se passam mais ou menos da mesma maneira, quer nos tornamos milionários, craque de futebol, campeão de tênis, artista de novela, pianista virtuose: todos temos, na entrada da idade adulta ou até mais adiante, os mesmos fantasmas, de modo que o individual longe de se afastar do coletivo, é apenas seu rosto. O Estado deveria fazer do individual seu ponto de partida, onde deveria se enraizar e buscar forças, e também finalidade. Deveria procurar, quanto possível e razoável, ajudar, satisfazer, promover e fazer crescer o indivíduo. Longe de estreitamento egoísta, o individualismo moderno é literalmente obcecado pelo cuidado com o outro. Todos sabemos o quanto o isolamento é nocivo, e o quanto inexiste vida bem-sucedida sem experiências compartilhadas.
Não só o cuidado com os filhos está mais intenso do que nunca, mas o desejo de igualdade . À medida que há mais tentações, mais incitação ao consumo, há cada vez menos razões para não ceder, cada vez menos enquadramentos éticos que freiem os desejos e controlem os exageros. Pode-se de maneira incrivelmente rápida perder o senso da realidade... Diante de tais realidades começa a se tornar insuportável, para não dizer obsceno, o discurso dos "vencedores", dos que "estão por cima, tirando vantagem a qualquer custo", E daqueles que estão sempre glorificando o espírito empreendedor. Nem todo mundo pode vencer no sentindo a que eles se referem e é difícil imaginar um mundo em que só existissem executivos. Hoje, sabemos que mesmo se tivermos estudado muito, nos dedicado com afinco, podemos nunca sair do chão. O mérito é uma idéia bem relativa. O sucesso na vida não é o sucesso da vida e o melhor professor do mundo cujos efeitos benéficos para nossas crianças têm um valor inestimável... Nunca vai passar do seu modesto salário de professor. E, mesmo assim, eu penso que ele é mais importante para os nossos filhos, infinitamente mais, do que aquele cara da bolsa de valores...
Baseado no livro de Luc Ferre: "Famílias, amo vocês. Rio:Objetiva, 2008.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

O tamanho das pessoas


O tamanho das pessoas

Como se mede uma pessoa?
Os tamanhos variam conforme o grau de envolvimento. Ela é enorme para você quando fala do que leu e viveu; quando trata você com carinho e respeito, quando olha nos olhos e sorri destravada.
É pequena para você quando só pensa em si mesma, quando se comporta de uma maneira pouco gentil, quando fracassa justamente no momento em que teria que demonstrar o que há de mais importante entre duas pessoas: a amizade, o respeito, o carinho, o zelo e até mesmo o amor.
Uma pessoa é gigante para você quando se interessa pela sua vida, quando busca alternativas para o seu crescimento, quando sonha junto com você. É pequena quando desvia do assunto.
Uma pessoa é grande quando perdoa, quando compreende, quando se coloca no lugar do outro, quando age não de acordo com o que esperam dela, mas de acordo com o que espera de si mesma.
Uma pessoa é pequena quando se deixa reger por comportamentos clichês. Uma mesma pessoa pode aparentar grandeza ou miudeza dentro de um relacionamento, pode crescer ou decrescer num espaço de poucas semanas.
Uma decepção pode diminuir o tamanho de um amor que parecia ser grande. Uma ausência pode aumentar o tamanho de um amor que parecia ser ínfimo.
É difícil conviver com esta elasticidade: as pessoas se agigantam e se encolhem aos nossos olhos. Nosso julgamento é feito não através dos centímetros e metros, mas de ações e reações, de expectativas e frustrações.
Uma pessoa é única ao estender a mão. Ao recolhê-la inesperadamente, torna-se mais uma.
O egoísmo unifica os insignificantes. Não é a altura, nem o peso, nem os músculos que tornam uma pessoa grande...
É A SUA SENSIBILIDADE, SEM TAMANHO...

William Shaskespeare
http://www.releituras.com/ – acessado em 05/05/2006

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

O PORQUÊ DO ESTUDO HISTÓRICO

O porquê do estudo històrico...
Como estudar o passado, uma vez que não temos acesso a ele? Como relacionar-se com o que não existe? Por que estudar história se tudo o que dissermos ou soubermos do passado são interpretações? Essas indagações nos levam ao problema: por que estudar história? Por que nos determos sobre algo a que não teremos acesso?
De modo simplificado podemos dizer que estudamos história para entender como as relações e/ou alterações econômicas interferem em nossas vidas. Para entender como ocorrem as relações entre as pessoas (relações sociais) e de como pessoas, ou determinados grupos sociais ou instituições, entre as quais se estabelecem as relações sócio-políticas, tentam se impor sobre outros grupos ou pessoas, manifestando nisso as relações do poder político que norteiam a sociedade.
Embora não sejamos capazes de voltar ao passado, nem de chegar ao futuro, nem mesmo de manusear o presente, somos, mesmo assim movidos pelo eterno e incansável desejo de saber. E queremos o saber não só para nos apropriarmos dele, mas queremos nos apropriar do saber para possuirmos elementos de manipulação. O saber, portanto é uma das dimensões da política que é um dos braços da economia que interfere nas relações sociais e, portanto, interfere em nossas vidas cotidianas. Estudamos história não por amor ao passado, mas porque queremos interferir em nosso cotidiano, que é um presente fluído, constante e virtuosamente sendo arremessado ao passado.
Neste ponto é que entram a memória e os patrimônios. A memória como evocação do passado e o patrimônio como representação do passado. Tendo isso por base podemos dizer que, por mais que não tenhamos acesso ao passado o que inviabilizaria a história, podemos estudá-lo. E é o que fazemos pela mediação da história, pois somos buscadores do saber. E para termos acesso ao saber manuseamos os elementos que evocam o passado a fim de encontrarmos um significado – e assim damos significado àquilo que a memória nos apresenta ou àquilo que está preservado nos elementos patrimoniais. A história, portanto, é algo que se estuda indiretamente, por mediações: a mediação das teorias.
O problema do acesso ao objeto de estudo não é exclusivo da história. As chamadas Ciências Humanas se defrontam com esse problema. “Mesmo que as ciências humanas tenham começado a surgir no final do século XIX, até hoje enfrentam problemas na tentativa de estabelecer o método adequado à compreensão do comportamento humano” (ARANHA; MARTINS, 1997, p. 166). Essa dificuldade metodológica, continuam as autoras, se deve à complexidade que é o ser humano, à dificuldade de se comprovar experimentalmente, reações e comportamentos humanos e à impossibilidade de dados objetivos, pois não se repetem da mesma forma e nas mesmas proporções, mesmo que as situações sejam semelhantes.
Sabendo que são as concepções teóricas que sustentam a veracidade histórica, somos levados a nos confrontar com o problema da subjetividade e com a possibilidade da cientificidade da história. E com isso entramos naquilo que B. Mondin chama “ceticismo histórico” e de “realismo histórico”. Sendo que o “ceticismo” nega a possibilidade de se fazer ciência histórica principalmente por que os fatos são interpretados discordantemente. “a interpretação dos fatos é bem diferente conforme a história é escrita por um positivista, por um marxista ou por um católico” (MONDIN, 1983, p. 148). Mas, por outro lado mesmo havendo essa subjetividade, e não há possibilidade de excluí-la, permanece a afirmação da cientificidade não pela comprovabilidade, mas pela utilização de instrumentos teóricos adequados. Mesmo que o acesso ao fato seja indireto, é mediatizado pela teoria e pelo documento, a cientificidade é garantida pelo embasamento teórico.
Esse acesso indireto é o que os PCNs chamam de “subjetividade interpretativa”. Não se estuda o fato, nem o processo gerador do fato, mas as representações desse processo e desse fato. Os historiadores fazem suas pesquisas utilizando-se de documentos que podem ser escritos, iconográficos, arquitetônico, numismático, elementos culturais, os depoimentos dos que viveram o processo ou os fatos, etc. Podemos dizer, portanto que qualquer objeto ou realidade está carregado de história. E nessa história estão presentes muitas pessoas que vivenciaram os processos que foram os produtores dos fatos; pessoas que mantiveram as relações sociais, econômicas e políticas.O estudo da história, portanto “dilui” a distância entre o sujeito cognoscente e a realidade pesquisada.
Essa diluição das distâncias e a interpenetração entre o sujeito e o objeto de estudo instigou alguns historiadores a assumirem plenamente uma subjetividade interpretativa, questionando a dimensão real e o comprometimento do conhecimento histórico com a ‘verdade’ em termos de vínculo com a realidade social. (BRASIL, 1998, p. 32)
Sendo expressão de uma subjetividade, o conhecimento histórico depende de validação. Essa validade é conferida pelo “diálogo que o historiador estabelece com seus iguais, a coerência de sua abordagem teórico-metodológica e a organização do conhecimento por meio de uma formalização da linguagem científica da história” (BRASIL, 1998, 32). São as teorias científicas que dão sustentação ou veracidade à afirmação histórica.
Dessa forma, o estudo da história só tem sentido e validade, só ganha status de cientificidade a partir de uma metodologia aplicada ao processo da busca da compreensão daquilo que é apresentado como memória ou patrimônio. A validade ou verdade histórica depende dos elementos metodológicos que são convenções da comunidade científica atual. Não se faz história com os critérios do passado, ou de quem viveu o fato estudado, mas com nossos critérios olhamos o passado, inacessível.
Isso nos leva à importância da memória e do patrimônio para o estudo da história. E parece não ser exagerado afirmar que a memória pode ser vista como a mãe da história. Tanto no sentido de ver a história como ação humana, como no sentido de narrativa escrita dessas ações.


Texto na integra com todos os direitos reservados a Neri de Paula Carneiro – Mestre em Educação, Filósofo, Teólogo e Historiador. Publicado em: 07-04-2008
Seus textos são publicados regularmente no jornal Folha da Mata (Rolim de Moura-RO) nos blogs: http://falaescrita.blogspot.com/ e http://ideiasefatos.spaces.live.com/ e no site http://www.webartigos.com/
Acessado em 10/12/2008.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

A HISTÓRIA EM DETALHES


O cotidiano guarda ricas informações sobre o passado do homem. É só saber observá-lo.


Como professor sou adepto da chamada História do Cotidiano, corrente nascida na França na década de 1960 e que é cada vez mais valorizada. A proposta é simples: enxergar a realidade sob a perspectiva das pessoas comuns e das práticas, hábitos e rituais que caracterizam o dia-a-dia delas, tirando o foco dos grandes nomes e acontecimentos políticos e econômicos e voltando-o para riqueza que está próxima de todos, impregnada pela aparente banalidade do cotidiano. Investigar, por exemplo, como os cidadãos viviam, namoravam, noivavam e casavam, moravam, se divertiam, eram educados, nasciam e morriam.
A grande vantagem dessa abordagem é que ela envolve muito mais os alunos, funcionando como um facilitador para questões menos palpáveis, como a política e a economia.
Além disso, essa é a melhor forma de mostrar que a História é feita por todas as pessoas, em todos os momentos da vida – não apenas quando uns poucos participam de feitos extraordinários. “Esse viés consolida o estudo dos grupos anônimos (operários, crianças, quilombolas...), iluminando aspectos da vida deles que até então não eram vistos”.
Como chegar lá: Identifique no cotidiano elementos que ajudem a compreender a dinâmica, as crenças e o legado dos diferentes grupos humanos. Você tem acesso a esses elementos em livros, quadros, fotografias – e também à sua volta, em casas antigas, roupas de outras épocas, receitas de comida etc. Extraia dessas fontes o maior número de informações possível, para depois emendá-las, relacioná-las e generalizá-las.
Dica: Não encare o cotidiano como curiosidade. O ideal é ampliá-lo, conectando os vários fragmentos para obter uma visão estruturada da realidade. Veja-o como ponto de partida para um estudo amplo, não de chegada. Privilegiar situações cotidianas não significa deixar de lado as análises políticas e econômicas.
O segredo está em caminhar do particular para o geral – e não o contrário, como acontece muitas vezes: “Passe sempre da pequena para a grande História”

Da cocada ao Brasil colônia
Um ótimo exemplo para entender a História do Cotidiano é o legado do período colonial: O açúcar. Como principal ingrediente, o açúcar – está presente em todos os momentos da vida do brasileiro: no café da manhã, no almoço de domingo, nas festas de aniversário.
O ponto de partida pode ser uma receita daquelas bem açucaradas, bem brasileiras, como a da cocada (a baixo). Você sabe quando ela foi criada? Para o sociólogo pernambucano e nordestino Gilberto Freyre, esse e outros quitutes são um legado do período colonial ou Nordeste doce. “À sombra da lavoura e da indústria da cana desenvolveu-se uma arte de doces que se situa entre as mais características da civilização brasileira”, ele escreveu em seu livro AÇUCAR. Foi nas cozinhas das casas grandes, pelas mãos das sinhás e das escravas negras, que o produto mais abundante no mundo dos engenhos foi sendo misturados com frutas e ingredientes locais e se transformando nas saborosas compotas que apreciamos até hoje.
Por que esse alimento era tão farto na época? A pergunta é um bom gancho para explicar o ciclo econômico que, junto com o do café, foi um dos mais importantes na história do país. A cana foi introduzida no Brasil pelos portugueses, que a conheceram durante as grandes navegações pelo Oriente. Aqui, a planta encontrou clima ideal para se alastrar e, rapidamente, virou a base do primeiro sistema econômico local: a plantation, que tinha como pilares a monocultura, o grande latifúndio e a escravidão. Onde estavam os canaviais? Eles se espalhavam por boa parte do litoral, principalmente nas capitanias da atual Região Nordeste – e, mais tarde, no Sudeste. O que são capitanias? Está ai uma chance de falar sobre a divisão política e territorial da então colônia.
O tema ainda nos remete ao sistema escravista, que predominou no país por mais de três séculos e teve profundas influências na formação da sociedade. Afinal, era para cortar cana e produzir açúcar que os negros eram trazidos. Como era a vida deles nos engenhos? Quais as contribuições que tiveram na formação da cultura brasileira? Como você vê, é um sem-fim de possibilidades, elos e caminhos. Tudo isso, quem diria, começando por um simples doce.
A receita da cocada: “Raspa-se um coco, faz-se a calda de 1 quilo de açúcar, junta-se o coco à calda e lava-se ao fogo. Quando a calda estiver em ponto de fio, tira-se do fogo e mexe-se com uma colher de pau até um pouco antes de açucarar. Em seguida deita-se o doce numa tábua ou numa mesa de mármore; quando estiver frio, parte-se com uma faca em losangos e põe-se ao sol para secar”. Extraída do livro Açúcar, de Gilberto Freyre.