sábado, 26 de março de 2011

O sentido prático da Filosofia


O sentido prático da Filosofia

Filosofia. Ora, a filosofia procura estudar o sentido da vida, descobrir o significado das coisas, o "Por quê?", o "Como?" e o "Para que?".

Que dizer de uma área de estudo presente até mesmo em longas metragens? Matrix é uma boa representação. Resgata a mitologia grega, a etimologia e a filosofia. Isto pode ser percebido em várias cenas do filme. Uma delas quando Morfeu ( segundo a mitologia grega, era um espírito filho do sono e da noite. Que em absoluto silêncio, esvoaçava sobre um ser humano ou pousava sobre sua cabeça e tinha o poder de fazer adormecer e lhe aparecer em sonho ) leva Neo ( que quer dizer novo, ou aquele que renova ) para ouvir o Oráculo ( que é uma mensagem misteriosa enviada por uma divindade ou a própria divindade transmissora da mensagem ) e este lhe pergunta se havia lido a inscrição sobre a porta: "Conhece-te a ti mesmo" ( inscrição sobre um portal de um santuário dedicado ao deus Apolo, na cidade de Delfos - Grécia Antiga ).

Um dos nomes mais conhecidos do meio filosófico é Sócrates. Este, segundo a história, uma vez foi consultar o Oráculo do santuário de Apolo. E teve a seguinte resposta: " Sócrates é o mais sábio dos homens, pois é o único que sabe que não sabe."

Em comparação com o filme Sócrates assemelha-se a Neo. Ambos não se contentavam com as opiniões estabelecidas, com os preconceitos da sociedade, com as crenças incontestáveis. O grande filósofo desconfiava das aparências e procurava a realidade verdadeira de todas as coisas. Com a pergunta "O que é" ( o que é verdade?, o que é mentira?, o que é democracia?, etc. ), ele levava os atenienses a descobrir a diferença entre parecer e ser, entre mera crença ou opinião e verdade.

Como os de Neo, os combates socráticos não eram físicos, eram mentais, do pensamento. Toda a trajetória de Neo até o combate final na Matrix encontra-se também em "O mito da caverna" do filósofo Platão. Mito que, metaforicamente, relata a vivência humana que é forçada a acreditar naquilo que lhe é imposto, sem fazer qualquer tipo de questionamento ameaçador.

"O mito da caverna" nos instiga a, como Sócrates, perguntar "O que é?" e fugir do mundo de aparências em que vivemos. Um claro exemplo é que acreditamos na existência do tempo e que podemos medi-lo com instrumentos como o relógio e o cronômetro, sem questionarmos como, porque e para que.

Nota-se então que nossa vida cotidiana é feita de crenças silenciosas, da aceitação de coisas e idéias que nunca questionaremos por nos parecerem naturais. Cremos que somos seres racionais e, no entanto estamos acabando com o planeta. Cremos que somos capazes de conhecer as coisas e mesmo assim não respeitamos o meio-ambiente, deixando-nos levar pelo capitalismo. Acreditamos na existência da verdade e na diferença entre verdade e mentira.

Somos livres quando queremos ou apenas respeitamos as regras impostas pela sociedade? O que é a liberdade então?

Como é possível que haja duas realidades temporais diferentes, a marcada pelo relógio e a vivida por nós? Como é possível o tempo ser medido num relógio? O que é o tempo? Algo existente ou algo creditado pela nossa consciência?

- Será que percebemos as coisas como realmente são?

Enfim, diante de tantas indagações, tantas dúvidas, antes de tentar resolver os enigmas do mundo externo será mais proveitoso que comecemos compreendendo a nós mesmos.

sábado, 19 de março de 2011

A leitura e o princípio do prazer


A leitura e o princípio do prazer

Não há nada mais chato que ler um livro por obrigação. Espero que não seja este o seu caso. Aliás, tudo o que fazemos forçados é inconvenientemente doloroso. É preciso ter prazer naquilo que se faz.

Com a leitura não é diferente. Além do mais, o tempo dedicado a um livro é relativamente maior que a qualquer outro tipo de fruição intelectual. Aí vem sempre aquela velha desculpa: já não tenho tempo para ler livros. Mas o sujeito tem tempo para ir ao cinema, surfar na Internet, jogar conversa fora com os amigos e outros passatempos que lhe dão prazer.

Por isso, se você gosta de ler mas não tem tempo, ou então você, que está começando agora, e não consegue encontrar um livro que não seja chato, um conselho: experimente a leitura por duas, três, quatro páginas. Se não lhe der prazer, tesón, como dizem os hispanos, esqueça: esse livro não lhe merece. Ou vice-versa.

Porque um livro só é verdadeiramente um livro quando encontra um leitor. Livros que enfeitam estantes são tão inúteis quanto uma roda quadrada. O leitor deve interagir com o livro, deve vivê-lo plenamente, mas sem esquecer que o tempo de fruição é mais elástico que o de outras atividades.

Literatura não é cinema, que é consumido numa única sessão de, em média, duas horas. A leitura de um bom livro exige muitas horas e vários dias de dedicação. E se o prazer se mantém, se multiplica, quem ganha é o leitor.

Uma das mais interessantes teorias sobre a interpretação da obra literária é a estética da recepção, que procura analisar a obra literária em função dos inúmeros tipos de leitor que ela pode ter. Aliás, a verdadeira obra de arte traz consigo inúmeras possibilidades de interpretação.

Ao contrário da pose passiva que se esperaria de um leitor em contato com o livro − o livro como um repositório de informações, o leitor como destinatário −, cada leitor se posicionará em relação ao livro de maneira ativa, interagindo com ele de acordo com o seu nível de conhecimento − escolaridade, meio social, religião, profissão, enfim, o seu ambiente.

Se dois leitores de dois ambientes diferentes lerem o mesmo livro, sem dúvida nenhuma produzirão pelo menos duas leituras diferentes.

A Bíblia, por exemplo, que é uma verdadeira floresta de símbolos, terá variadas interpretações se lida sob a luz das várias teologias, e outras tantas ainda quando lida pelo homem comum ou por um intelectual anarquista.

Livro magnífico que é, a leitura da Bíblia não se esgotará jamais, e as divergências ajudarão a iluminá-la com a serena vela da dúvida e a torturante chama da paixão.

Porque essa é a essência da relação leitor/livro: se cada ser humano é único na imensidão do universo, cada livro será, para cada leitor, uma experiência singular, intransferível.

sábado, 12 de março de 2011

História das ideias

História das ideias

Com este artigo antes já publicado por aqui em anos anteriores, trago neste post a fascinante e envolvente história das ideias e suas filosofias.

A partir da filosofia grega, nasceu a reflexão crítica e a necessidade de explicações racionais para o mundo. Ao contrário do pensamento oriental, que nunca rompeu definitivamente com a prática religiosa, a filosofia ocidental parte rumo a aventura única: entender o mundo dos homens de uma perspectiva antropocêntrica.

Nessa estante de conhecimento, alinhamos obras, autores e escolas filosóficas em uma mostra do que o homem pensou, criou e transformou a partir de suas idéias. Obras e autores se sucedem. Um novo livro é sempre resultado do antigo, serve de base para crítica ou para o próximo.


Fonte e endereço desta matéria:
http://www.superinteressante.com.br/superarquivo/2002/conteudo_266256.shtml
Acesso em 10/03/2011.

sábado, 5 de março de 2011

A memória humana e a escrita


A memória humana e a escrita

O ser humano desenvolveu a capacidade de transmitir conhecimento a seus semelhantes. Talvez tenha sido essa capacidade que permitiu sua sobrevivência como espécie e, certamente, foi ela que lhe deu a supremacia na escala evolutiva.

Nos primórdios da civilização bastou que esse conhecimento fosse transmitido por uma linguagem que misturava sons e gestos. Como isso era transmitido de geração em geração e como quem conta um conto aumenta um ponto, criaram-se histórias fantásticas. Surgiram as lendas das quais até hoje temos notícia.

Durante a era do gelo a humanidade sobreviveu graças à caça de grandes animais, mas ela terminou. O ambiente mudou radicalmente e o ser humano foi obrigado a encontrar outras fontes de alimentação. Daí surgiu a agricultura e, com ela, a sedentarização, a organização social em cidades e o acúmulo de riquezas.
A humanidade percebeu que não havia mais como confiar somente na memória e, por volta do ano 3.100 a.C., surgiu a escrita. No princípio, era um simples rol de riquezas estocadas em armazéns, mas logo o homem começou a usá-la com finalidade religiosa, cultural e comercial.

Com o grande salto cultural dado pelos gregos no período clássico, a escrita tornou-se o principal instrumento na transmissão do saber e, paralelamente, um instrumento de poder político.

No entanto, a escrita não foi aceita por todos. Platão, através de Sócrates em seu diálogo com Fedro, nos traz ao conhecimento uma lenda egípcia. Thot, deus a quem era consagrada a ave íbis, inventou os números e o cálculo, a geometria e a astronomia, o jogo de damas e os dados, e a escrita. Durante o reinado de Tamuz, o deus ofereceu-lhe suas invenções, dizendo-lhe para ensiná-las a todos os egípcios. Mas Tamuz quis saber de suas utilidades e, enquanto o deus explicava, o faraó censurava ou elogiava, conforme essas artes lhe parecessem boas ou más. Quando chegaram à escrita Thot disse que aquela arte tornaria os egípcios mais sábios e lhes fortaleceria a memória. No entanto, Tamuz respondeu-lhe que a escrita tornaria os homens esquecidos, pois deixariam de cultivar a memória. Ao confiar apenas nos livros, só se lembrariam de um assunto exteriormente e por meio de sinais, e não em si mesmos. Os homens tornar-se-iam sábios imaginários.

Nesse mesmo diálogo, Sócrates considera a escrita como algo que limita o pensamento, que engessa as idéias. Um discurso escrito, dizia ele, será sempre o mesmo, repetido inúmeras vezes sem que se possa agregar novas idéias.

Ironicamente, se hoje sabemos muito da filosofia de Sócrates é porque Platão a escreveu.

Analisando a questão frente a nossos conhecimentos sobre a memória humana, podemos, no entanto, afirmar que escrever é uma forma salutar de ampliar nosso banco de dados. Salutar porque é preciso esquecer para poder lembrar. Explicando, nossa memória não pode guardar absolutamente todas as informações que lhe chegam, sob risco de bloqueio. É armazenando somente o que interessa e associando convenientemente os dados estocados que a memória pode ser evocada.

De qualquer forma, a escrita está aí, imutável ao longo do tempo (a não ser, claro, em algumas dessas péssimas traduções com que por vezes nos deparamos), pronta para ser consultada quando precisamos e, sobretudo, liberando o cérebro humano para a associação dos conhecimentos armazenados e a criação de novas idéias.

A título de ilustração, sabe-se que com treinamento intenso e adequado, uma pessoa pode reter uma seqüência de 50, 100 algarismos. No entanto, com papel e lápis qualquer um terá a mesma seqüência guardada, com um mínimo de esforço.

Finalizando, não podemos nos esquecer do que dizia Confúcio......Bem, ele dizia......O que mesmo ele dizia?........Acho que me esqueci, teria sido melhor escrever.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Diferenças entre memória e lembrança


Lembrança e memória: suas semelhanças e diferenças.
O que vem a ser a memória?
A memória é uma das funções cognitivas mais complexas que a natureza produziu, e as evidências científicas sugerem que o aprendizado de novas informações e os seus respectivos processos de armazenamento causam alterações estruturais no sistema nervoso.

A memória é a capacidade de reter, recuperar, armazenar e evocar informações disponíveis, seja internamente, no cérebro (memória humana), seja externamente, em dispositivos artificiais (memória artificial).
A memória humana focaliza coisas específicas, requer grande quantidade de energia mental e deteriora-se com a idade. É um processo que conecta pedaços de memória e conhecimentos a fim de gerar novas idéias, ajudando a tomar decisões diárias. Memória, segundo diversos estudiosos, é à base do conhecimento. Como tal, deve ser trabalhada e estimulada. É através dela que damos significado ao cotidiano e acumulamos experiências para utilizar durante a vida.
A memória tem a função de promover a adaptação do ser ao meio, contribuindo para a sua sobrevivência. No caso dos humanos, "a complexidade é maior pela participação da linguagem, e pela modulação por sentimentos, emoções e estados de ânimo".

O que vem a ser a lembrança?
A lembrança vem a ser uma evocação do passado, é a capacidade humana para reter e guardar o tempo que se foi, salvando -o da perda total...todos nós conhecemos os belos versos do poeta : "Eu me lembro,eu me lembro!era pequeno e o mar bramia.
''Então...A memória possibilita que guardemos o tempo que se foi, mas também permite que projetemos o futuro, já que sem ela não poderíamos ter consciência do tempo, muito menos da nossa identidade.

É representada pelo ''Eu''O ''Eu" é mais do que a lembrança, ele é a consciência superficial e profunda do que somos, pois, quando nos pensamos, reunimos lembranças do passado e projeções para o futuro, de forma que somos sempre o que passou e o que ainda virá.

A memória é a garantia de nossa própria identidade e podemos dizer "Eu" reunindo tudo o que fomos e fazemos...é lá que guardamos, repousa tudo o que a ela foi entregue, que o esquecimento ainda não absorveu, nem sepultou...é lá que estão também todos os conhecimentos.

O grande poder da memória assusta, como já dizia Santo Agostinho. Temos medo de esquecer o que de mal vivemos, mas igualmente temos medo de não lembrar a felicidade vivida.

Somos essa misteriosa mistura de passado, presente e futuro.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Preservação da Memória


O sentido da preservação da memória

Muito se diz pela preservação da memória de alguém que passou pela vida deixando sua marca para não ser esquecida. Mas, as perguntas que faço são: o que é a preservação da memória? Quais as ações que devem ser adotadas em prol da preservação da memória? O que se espera pela preservação da memória?

O primeiro passo foi tentar entender o que é memória e, segundo ‘Caldas Aulete’, memória é a ‘faculdade de conservar a lembrança do passado ou da coisa ausente’. Curiosa, o próximo passo foi me dirigir ao conceito de lembrança e no mesmo ‘Caldas Aulete’ verifico que a lembrança pode ser entendida como o ‘pensamento que se conserva por certo tempo na memória’.

Talvez uma conclusão lógica seja a de que a preservação da memória significa manter algo conservado e guardado de modo a não se perder no tempo.Mas, pensando na trajetória de um artista, tenho que as pessoas que se dedicam à arte desejam expressar seus sentimentos, ideias, conceitos, pensamentos e momentos de modo a deixarem suas marcas eternizadas. O artista, por meio de sua obra, se mantém vivo por um tempo indeterminado. Assim, a preservação da memória de um artista que já não mais está presente é o meio de mantê-lo presente.

Para manter o artista presente, a preservação da memória deve ser “ativa”, ou seja, a obra do artista deve ser acessível para fazer com que o artista continue sua trajetória, pois se a preservação for no sentido de conservação do acervo com inúmeras restrições de acesso ao público, o artista acabará sendo lembrado por poucos e aos poucos sua memória se tornará uma espécie de “arquivo morto” aonde alguns irão se dirigir para eventuais pesquisas históricas e a memória será mais uma lembrança do pensamento que uma ‘preservação da memória do artista’.

Entendo a preservação da memória como a preservação da vida e da obra do artista assim como ele mesmo o fazia. Entendo que a melhor forma de preservar a memória é fazer com que a obra do artista continue “ativa”, “viva”, “acesa” e “acessível” com todos os cuidados inerentes à peculiar situação de obras que se tornam únicas com a ausência do artista.

Neste sentido, as ações dirigidas aos acervos de artistas ausentes são tão importantes quanto as ações pensadas para os artistas em pleno desenvolvimento criativo e neste caminho a ‘faculdade de conservar a lembrança do passado’ transcende a simples preservação da memória para alcançar a preservação do artista e da sua obra dando-lhes o devido valor.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Memória, onde està?


Memória, onde está?

A memória está nos nossos corpos, nas lembranças que carregamos conosco e também está nos objetos, nas fotos, nos registros escritos. As memórias dos grupos se referenciam, também, nos espaços em que habitam e nas relações que constroem com esses espaços.

Ao longo dos séculos, a humanidade vem reunindo em coleções de objetos e registros e criando espaços específicos para armazenar os traços e vestígios do passado, a memória social, testemunhos da experiência e da vivência dos grupos.

Em espaços privados, ao lado dos templos, ou em monumentos e arcos, bibliotecas e arquivos, os vestígios do passado chegam ao presente. A partir do século XVIII, estas instituições se organizam e muitas se tornam públicas, dando origem a diferentes instituições de memória como os museus (a casa das musas), pinacotecas, arquivos públicos, bibliotecas que hoje conhecemos e freqüentamos, com objetivos educativos, culturais, de lazer e entretenimento.

O século XX viu a multiplicação destas instituições de memória. Museus de História, de Ciências, museus da Guerra, museus da Imigração. Cidades abandonadas pelo declínio econômico de certas atividades (metalurgia, por exemplo) são convertidas, inteiras, em museus. Cada vez mais cenográficas, muitas dessas instituições não resumem seus objetivos a trazer dados do passado, mas pretendem recriar o passado, reviver a memória, as antigas tradições, reconstruir identidades. A transmissão fria de informações dá lugar à sensibilização dos visitantes.

Esta multiplicação de espaços e atividades destinadas a preservar a memória ocorre justamente num tempo em que vivemos, como nunca, a sensação de enorme velocidade e de perda iminente das memórias e referências do nosso passado.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Memória é história?


Memória é História?
Memória é o mesmo que História? Seria a História uma porção de memórias reunidas? Essa questão vem sendo também objeto de muitos estudos.

É certo que memória e História têm como foco o passado, porém este passado é a matéria-prima comum para processos que, para muitos autores, não se confundem. Isso porque a memória é um processo vivo, vivido física e afetivamente pelos grupos, e permanece na medida em que se renova, é transmitida e compartilhada.

Não há memória sem as pessoas que a mantêm como sentimento e como prática. Ela não é fixa, as memórias se rearranjam, se organizam e se articulam a novas experiências; a é sempre presente.

Já a História diz respeito a um tempo passado mais amplo, que se cristaliza no registro escrito e que se distancia dos que a viveram. A História é uma reconstituição, uma representação do passado, produzida a partir do distanciamento, da análise intelectual do discurso crítico.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Memória coletiva


Eu lembro, nós lembramos...

Dentre os vários estudos sobre a memória, os de Maurice Halbwachs contribuíram muito para a compreensão da memória e suas relações com o contexto social. Para ele, o lembrar se dá sempre no social. Mesmo a memória aparentemente mais particular, a nossa experiência vivida, está ligada à memória de um grupo. Cada um de nós carrega as suas lembranças, mas não estamos sós neste lembrar; ao contrário, estamos o tempo todo interagindo com a sociedade, seus grupos e instituições.

A nossa memória está impregnada das memórias dos que nos cercam. Não é preciso que eles estejam presentes, a nossa memória e as maneiras como percebemos o mundo se constituem a partir desse emaranhado de experiências, tão diversas quanto os diferentes grupos com que nos relacionamos.

Sentimos como se a nossa memória fosse só nossa, uma unidade, embora nossas lembranças se alimentem das diversas memórias oferecidas pelo grupo, a que o autor denomina “comunidade afetiva”. Dificilmente nos lembramos fora deste quadro de referências. Tanto nos processos de produção da memória como na rememoração, o outro tem papel fundamental.

Esta memória coletiva tem a importante função de contribuir para o sentimento de pertinência a um grupo de passado comum, que compartilha memórias. Sentimo-nos parte do grupo quando compartilhamos de suas lembranças. A identidade se constitui nesta memória compartilhada.

Poderíamos imaginar que, por se alimentar do passado, a memória seja estática. Porém, ela se modifica ao longo do tempo e se rearticula conforme a situação, as relações que se estabelecem.

A memória é história viva e vivida, e permanece no tempo renovando-se. Para lembrar e para esquecer também estão em jogo elementos inconscientes como o afeto, a censura, entre outros. A memória não é uma simples gravação. Relaciona-se às emoções, às outras experiências vividas, aos valores e experiências dos grupos. Lembrar também se relaciona com o coletivo. Dificilmente lembranças emergem fora das relações com os grupos e o interesse pela experiência do outro.

sábado, 22 de janeiro de 2011

Memória e Sociedade


“A memória permite a relação do corpo presente com o passado e, interfere no processo atual das representações. Pela memória, o passado não só vem à tona das águas presentes, misturando-se com as percepções imediatas, como também empurra, “desloca” estas últimas, ocupando o espaço todo da consciência; A memória aparece como força subjetiva ao mesmo profunda e ativa, latente e penetrante, oculta e invasora.”

Segundo esse argumento, a cada nova história a qual somos apresentados vivemos a sensação do desconhecido. Só podemos dizer que algo é “novo” por sabermos que não pertence a nenhum material retido na memória do sujeito em forma de lembrança. Além disso, nós temos materiais de lembrança latentes. São objetos ou fatos que só são lembrados de forma consciente quando induzidos por fatores externos ou por um esforço interno. “Na realidade não há percepção que não esteja impregnada de lembranças” (BERGSON 1959 apud BOSI, pp.45)

A memória serve de modelo para que um determinado comportamento seja avaliado como certo ou errado, permitindo que pela repetição de um ato, seja possível ficar cada vez melhor e mais treinado. Quanto mais se treina um comportamento, por exemplo, nas atividades esportivas, mais as habilidades individuais vão se aperfeiçoando.

A idéia do treino é exercitar a memória do ato para que chegue a cada treino mais perto da perfeição ou de um ideal pré-desejado. Para Bergson, existiriam duas memórias:

Memória-hábito – esforço da atenção e repetição – (Ex: treino esportivo; ato de escovar os dentes, costumes a mesa). Lembranças isoladas, singulares, que constituiriam autênticas ressurreição do passado: momento único, singular, não repetido da vida. – (Nascimento de um filho; casamento) a memória-hábito se relaciona a todo tipo de ação cotidiana e adquirida pela repetição que fazemos quase sem perceber. São ações automáticas que aprendemos ao longo dos anos, em ações executadas quase sem pensar. Um exemplo é o ato de aprender a dirigir. No início, quando tudo é novidade, e ainda não temos esse saber adquirido, prestamos atenção a dados, que com o tempo e com o treino irão ser tornar um ato automático que depois executamos sem perceber.

Já a lembrança isolada ou singular é aquele marco social que fica como importante para o resto na vida do sujeito e do qual ele irá se referir no futuro como um acontecimento do passado. O cuidado maior de Bergson é o de entender as relações entre a conservação do passado e a sua articulação com o presente e a interseção vital existente entre o fenômeno da memória e o da percepção.
Sem as lembranças o passado não sobreviveria as gerações futuras e o conhecimento se resumiria ao ato presente. A lembrança é a sobrevivência do passado. No texto de Berson, no entanto, não há uma problematização sobre o sujeito que lembra e muito menos da relação dos sujeitos com as coisas lembradas.

Fonte:
Memória e Sociedade: lembranças de velhos
Livro de
Ecléa Bosi – São Paulo, Companhia das Letras, 2002
Livro pesquisa sobre memória cognitiva e social, que através do relato de vida pessoal contam aspectos da vida da cidade de São Paulo, incluindo fotos. Belissimo livro e trabalho, com bom arcabouço teórico. Usa como fundamentos teóricos entre muitos o embasamento de Henri Bergson e Halwbachs.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Memória e mídia


No post de hoje, continuo comentando assuntos sobre caminhos anteriores. Desta vez, relaciono memória e mídia no contexto cotidiano.
Memória: Do latim "memoria", faculdade de reter as idéias, impressões e conhecimentos adquiridos anteriormente. Retemos aquilo que de alguma forma nos impressiona, nos comove ou nos agride. Ou podemos jogar a mesma matéria na "caixa preta" do nosso ser, que imperceptivelmente registra os fatos mas só os aciona se de alguma forma for ativada por uma força externa. Segundo Freud, "memória e esquecimento estão indissolúvel e mutuamente ligados; e o esquecimento é uma forma de memória escondida".

Consideremos sobre a forma na qual nos apoiamos para reter ou lembrar as impressões que vamos colhendo pelo caminho. Não é suficiente colher e guardar os fatos que vemos nos nossos cotidianos, no nosso país, na nossa história cronologicamente determinada.

É a memória vivida, reconstruída através dos nossos sentidos e dos sentidos dos que contemporaneamente nos cercam que constrói a nossa teia de conhecimento. A memória permite a relação do presente com o passado. Quanto mais pessoal, menos socializada for a memória, mais distante e de difícil acesso será a sua atualização pela consciência.

E o instrumento mais socializador da memória é a linguagem. Através da linguagem, nos identificamos dentro da sociedade em que vivemos. Usando símbolos e meios pelos quais estes símbolos são transmitidos relacionamo-nos com o outro e nos transformamos, modificando consequentemente a sociedade em que vivemos.

Maurice Halbwachs, em "Memória Coletiva", nos coloca isto de forma bem clara: "Percebemos cada meio à luz do outro. As lembranças mais difíceis de evocar são aquelas que não pertencem senão à nós". E sucessivamente, assim como em uma rede de transmissão de dados e conhecimentos, acontecimentos e depoimentos vão tomando uma forma e ocupando um lugar na nossa memória pessoal e na memória da nação.

Em um país tão grande como o nosso, o modo como se organiza nossa percepção de espaço e tempo é influenciado diretamente pela Mídia. Isto para não falarmos em globalização e mídia globalizada. Concentremo-nos em nós desta vez. Na nossa mídia nacional. Juntas, a vida vivida e a vida através da "telinha" vão recortando nossa sociedade e gerando novas gírias, costumes, valores. Um gesto circular vira sinônimo de cerveja. Ou pode ser a "Número 1". Transitamos entre o delineador de "Jade", o cabelo de Fátima Bernardes, o estilo de Marília Gabriela. Desejamos ser como Vera, sempre bela.

Quem se lembra das "Casas Pernambucanas" com o "Não adianta bater, eu não deixo você entrar?? Ou dos Porquinhos da casa da Banha dançando o "Tchá-tchá-tchá"?? Foram-se as empresas, morreram as marcas mas ficaram as lembranças na geração que viveu esta época. Leila Diniz e Elis... Quantas lembranças, quantas memórias podemos associar a elas ?

2002. Vivemos durante 62 dias a vida privada de doze pessoas através do Big Brother Brasil. A nação se comoveu, riu, reclamou, chorou, votou. Tornou os participantes íntimos de suas casas, de suas discussões no trabalho. Records de audiência foram batidos na final. Isentemo-nos das críticas por alguns momentos. Quase todos queriam saber quem seria o (a) escolhido (a) do nosso Brasil. É fato. E enquanto comentávamos ou criticávamos, fomos tecendo nossa memória. Alguns continuarão na mídia, que opera milagres diariamente. Outros cairão na parte da memória esquecida. "Faz parte". Como também faz parte da cultura do nosso país aprender através Mídia, transformar-se através dela. A mídia, hoje livre, denuncia e derruba ministros, candidatos, presidente.

Digamos que em nosso país a Mídia não mais se limita a ser apenas um meio que transmite a vida gravada ou "ao vivo e a cores'. Ela vai muito além. "Sabemos que a mídia não transporta a memória pública inocentemente; ela a condiciona na sua própria estrutura e forma", diz Andreas Huyssen em "Seduzidos pela Memória".

Portanto Mídia, seja ela qual for, nos faça comprar, desejar, rir, chorar, comentar, distrair, mas principalmente, também nos ajude a pensar. Pensar novos caminhos sociais mais equilibrados e mais justos. Seduza-nos com shampoos suaves e ofertas imperdíveis, mas mostre-nos também como podemos juntos ir transformando nossa sociedade em lugar melhor de se viver, não para tão poucos, mas para muitos mais. Ajude-nos a tecer passado e presente neste Brasil de transformações constantes, que mesmo tão grandes, estão longe de refletir o nosso tamanho.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Memória, narrativa e as história do mundo


...dando continuidade...Memória, narrativa e as histórias do mundo

No desvendamento de diferentes modalidades das sociedades humanas configurarem o controle simbólico do tempo, as ciências humanas trataram, mais recentemente, de desconstruir o tempo por intermédio de sua dimensão interpretativa.

Seja como espaço de construção de uma inteligência narrativa que encerra a experiência de duração, reino da imaginação criadora; seja como fenômeno que participa das estruturas antropológicas do imaginário e de sua topologia fantástica, nos arranjos que esta engendra entre vida e matéria.

Uma vez que se reconheça os limites da separação ontológica entre ambas as instâncias, além do paroxismo que encerram tais atos humanos de rememoração, não se trata mais, na linha de argumentação aqui apontada, de refletir sobre a memória apenas, e tão somente, sob os efeitos de imagens-vestígios.

É a força interpretativa reconhecida à memória como espaço de construção de conhecimento que desponta como fenômeno a ser aqui aprofundado, tratando-se aí de reconhecer e compreender as tradições históricas, sociais e culturais que carregam e marcam de suas configurações.

Nestes termos, os jogos da memória explicitariam uma ação inteligente singular do sujeito humano sobre o mundo nas busca de um princípio de causalidade (formal e material) que possa enquadrar, de forma inseparável, vida e matéria.

A memória compreendida como um topos espaço fantástico, lugar de extraversão e introversão de uma linguagem arbitrária de símbolos, e coordenada, no plano da imaginação criadora, por esquemas de pensamento, evocaria, portanto, os diferentes procedimentos interpretativos- narrativos

Fonte: Revista Iluminuras - Publicação Eletrônica do Banco de Imagens e Efeitos Visuais - NUPECS/LAS/PPGAS/IFCH e ILEA/UFRGS

sábado, 1 de janeiro de 2011

Distinção e relação entre memória e tradição


No post de hoje, decidi continuar a comentar assuntos sobre caminhos anteriores. Desta vez, discuto a distinção e relação entre memória e tradição

Pode parecer óbvio estabelecer a relação entre memória e tradição, na medida em que ambas funcionam no movimento de manutenção de um "espírito" passado.

Todavia, existem detalhes no funcionamento delas que podem acabar confundindo, desviando ou, mesmo, impedindo uma clareza na sua relação. Por exemplo, em que medida, afinal, a memória mantém e sustenta a tradição, e em que medida ela forja, constrói uma tradição? Mas, então, a tradição continua sendo tradição nessas condições? O que determina e legitima uma certa tradição?

A tradição oral talvez seja o melhor espaço para se pensar essa relação. Aí, a tradição se estabelece pela ação direta da memória; esta se configura como um fio que se enreda como uma malha de referências, que é a tradição.

O poeta da oralidade é a personificação da memória de uma comunidade, sua encarnação; no seu corpo e na sua voz se materializam marcas da memória e emblemas da tradição. A tradição oral se somatiza no poeta ao ponto de a sua figura privada carecer de identidade em prol de sua figura pública.

É na performance que a transmissão da memória ocorre. Ela é capturada pelos ouvidos e pelos olhos, sensitivamente, no corpo a corpo que tensiona o espaço entre. Memória coletiva e coletivizada. Na performance, não há memória individual, não há individualidade, o sujeito se dissolve na ritualização com o poeta e com o contador, entrelaçando seu imaginário pessoal com o imaginário da comunidade.

Assim como também faz o poeta. Ele, na sua re-criação da memória coletiva, estabelece vínculos desta com o ambiente, o espaço no qual o lúdico da transmissão se instala. Sua memória é a memória coletiva, das várias coletividades por onde passou.

Desterritorializado, o poeta oral também se caracteriza como nômade das diversas falas que flagra e forja. Ele é somente o corpo, o meio, a máquina que re-produz falas de outrora e de alhures. O poeta oral viaja re-colhendo saberes oralizados em canções, poemas e contos e os re-passa adiante, navegante de sons, ritmos, palavras e idéias.

sábado, 25 de dezembro de 2010

A Memória como base do conhecimento


A memória como base do conhecimento

“Um povo sem memória e sem tradição é um povo sem alma e sem passado. Não vivemos do passado, mas o cultuamos para trazer vivo na memória dos nossos descendentes aquilo que nossos ancestrais construíram”.

A memória é a capacidade de adquirir (aquisição),
armazenar (consolidação) e recuperar (evocar) informações disponíveis, seja internamente, no cérebro (memória biológica), seja externamente, em dispositivos artificiais (memória artificial).

A memória focaliza coisas específicas, requer grande quantidade de energia mental e deteriora-se com a idade. É um processo que conecta pedaços de memória e conhecimentos a fim de gerar novas idéias, ajudando a tomar decisões diárias.

Os neurocientistas (psiquiatras, psicólogos e neurologistas) distinguem memória declarativa de memória não-declarativa. A memória declarativa, grosso modo, armazena o saber que algo se deu, e a memória não-declarativa o como isto se deu.

A memória declarativa, como o nome sugere, é aquela que pode ser declarada (fatos, nomes, acontecimentos, etc.) e é mais facilmente adquirida, mas também mais rapidamente esquecida. Para abranger os outros animais (que não falam e logo não declaram, mas obviamente lembram), essa memória também é chamada explícita. Memórias explicitas chegam ao nível consciente. Esse sistema de memória está associado com estruturas no lobo temporal medial (ex: hipocampo, amígdala).

Psicólogos distinguem dois tipos de memória declarativa, a memória episódica e a memória semântica. São instâncias da memória episódica as lembranças de acontecimentos específicos. São instâncias da memória semântica as lembranças de aspectos gerais.

Já a memória não-declarativa, também chamada de implícita ou procedural, inclui procedimentos motores (como andar de bicicleta, desenhar com precisão ou quando nos distraímos e vamos no "piloto automático" quando dirigimos). Essa memória depende dos gânglios basais (incluindo o corpo estriado) e não atinge o nível de consciência. Ela em geral requer mais tempo para ser adquirida, mas é bastante duradoura.

Memória, segundo diversos estudiosos, é a base do conhecimento. Como tal, deve ser trabalhada e estimulada. É através dela que damos significado ao cotidiano e acumulamos experiências para utilizar durante a vida.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Características multidisciplinares da narrativa

"a narrativa está presente em todos os tempos, em todos os lugares, em todas as sociedades, começa com a própria história da humanidade. (...) é fruto do gênio do narrador ou possui em comum com outras narrativas uma estrutura acessível à análise".

Narrativa existe desde o tempo em que as primeiras pinturas da idade das pedras foram feitas em cavernas e as primeiras histórias foram contadas ao redor do fogo. Na vida cotidiana uma pessoa é cercada por narrativas desde o momento em que torna-se capaz de compreender a fala. Uma pessoa pode aprender sobre o passado, eventos atuais e futuro a partir de contos, piadas, novelas, filmes, desenhos, jornais, telejornais, obituários de outras pessoas e entre outros. Seja a narrativa simples ou complexa, os indivíduos precisam ser capazes de entender suas funções para compreender o mundo circundante.

Narrativas, do latim narre ‘dar a conhecer, transmitir informações’, fornecem aos indivíduos uma ferramenta para aprender e ensinar uns aos outros sobre o mundo. A tradição oral de contar histórias que se transformou em nossos modos contemporâneos de narrativa tem sido reconhecida como a base da transferência de conhecimento no seio das sociedades (Campbell, 1949). Narrativas também são usadas por pesquisadores como uma metalinguagem que os permite descrever seus estudos e aproximar-se do objeto de estudo como um discurso narrativo.

O conceito da narrativa pode ser encontrado em inúmeros trabalhos produzidos por investigadores na área das humanidades e ciências sociais, seja ela o foco principal do trabalho ou apenas um dos elemento estudados. Como a narrativa é estudada a partir de uma variedade de perspectivas, suas abordagens podem variar significativamente. Ela pode ser abordada como um método para produzir, como uma teoria para investigar, como uma prática social, política ou estratégica.

Na maioria dos casos, no entanto, existem duas teorias principais através das quais as narrativas são analisadas: as teorias funcionalistas (focada na função da narrativa); e as teorias estruturalistas (focada na forma como a narrativa é produzida) (Threadgold, 2005, 262-267).

Paul Ricoeur e Peter Brooks apresentam uma abordagem existencial a narrativa como um fenômeno que dá significado a vida das pessoas. A abordagem cognitiva apresentada por Mark Turner e Jerome Bruner lida com a narrativa como instrumentos elementar do pensamento humano, de cognição. Os esteticistas (aestheticians), como Philip Sturgess, cuja obra Narrativity : Theory and Practice publicada em 1992 pode ser utilizada como principal exemplo, integra narratividade, ficcionalidade, e literariedade como aspectos indissociáveis.
Sociólogos focam-se no contexto no qual a narrativa é criada. Abordagens técnicas preferem análises narrativas baseadas na linguagem e incluem narratologias estruturalistas e análises lingüistas e do discurso (por exemplo em trabalho por Barbara Herrnstein Smith, ou Dan Ben-Amos). A narrativa é ainda caracterizada como um conceito, categoria analítica, tipo de discurso, tipo de texto, e macro-gênero (Ryan, 2004, p. 2-8). Com tantas variedades de contextos e abordagens a narratologia expande-se em um campo muito complexo.

Devido o significativo aumento de interesse sob os variados aspectos da narrativa, a narrativa deixou de ser um domínio exclusivo dos estudos literários, de forma que sua teorização carrega, desde seu início, características multidisciplinares. Dessa maneira, a teoria da narrativa ou narratologia é mais do que nunca aberta a diversas metodologias de diferentes áreas: filosofia, história, sociologia, psicologia, religião, etnografia, lingüística, comunicação e estudos de mídia.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Narrativa e narração


“O narrador conta o que ele extraí da experiência – sua própria ou aquela contada por outros. E, de volta, ele a torna experiência daqueles que ouvem sua história”
Walter Benjamin
Dominando a palavra o homem tentou perpetuar seus mitos, sua visão mágica do mundo, suas conquistas, sua história. Nas narrativas, nas lendas, nas epopéias e canções, alegorizou seus ritos, temores e feitos, Seus registros venceram o tempo nos traçados de múltiplos códigos, como a escrita cuneiforme, os hieróglifos e a arte primitiva.

Assim, as pinturas rupestres da caverna de Altamira, as escrituras sagradas dos Vedas, as epopéias gregas, as cantigas provençais, os contos de fadas contam cada qual a fantasia, a mitologia,a história de seu povo. No texto oral ou escrito, ouvir e ler histórias é uma atividade antropológico-social que distingue culturalmente o homem.

Desde que descobriu o poder encantatório da palavra, o ser humano deu curso ao pensamento mítico, deu permanência às crenças, às divindades, à criação do mundo, ao cosmos, envolvendo-os em alegorias. Nos séculos XVI e XVII, na literatura oral de raízes populares, predominam os contos folclóricos, os ditos e provérbios. Na segunda metade do século XVII, propaga-se a ação sistemática da Igreja para cristianizar a cultura popular, mas o patrimônio imaginário dos contos, sobretudo os de fadas, resiste à luta de forças da Contra Reforma que domina o cenário religioso e escolar daquele século.

Com a evolução da História, a interpretação dos acontecimentos foi-se distanciando das alegorias, da imaginação; entre o mito e as formas derivadas da narrativa (o romance, a novela, o conto, a crônica), os heróis divinos torna-se personagens humanas. Os fator históricos de épocas primordiais cedem lugar aos episódios cotidianos contemporâneo. Hoje, afirma Nelly Novaes Coellho (O conto de fadas), “uma das características mais significativas do nosso século é a coexistência, pacífica ou não, entre inteligência racional/cientificista, altamente desenvolvida, e o pensamento mágico que dinamiza o imaginário”.

Nas narrativas orais, nas fábulas, nos contos de fadas ou nos romances contemporâneos, é a imaginação que faz com que apreciemos os encantamentos de Branca de Neve como apreciamos o fascínio de Cem anos de solidão.

Foi pensando no imaginário, na magia e na fantasia que foram selecionados os textos narrativos desta coletânea. Histórias que, sem deixar à margem o padrão culto da língua, encantam pela simplicidade, pelo humor, pela sátira, pela inovação, pela singularidade, enfim pelo aproveitamento exemplar das virtualidades da língua.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Narrativa oral


Sem narrativa oral, experiência de vida diminui

Marcada pelo pensamento de Karl Marx, a obra do filósofo alemão
Walter Benjamin (1892-1940) tem sido revisitada. Essa retomada evidencia contribuições importantes da filosofia do século passado à interpretação de questões sociais contemporâneas.
Destacaremos o que Benjamin chama de experiência - quando os seres humanos tomam posse de sua própria história.
Livro impresso
A base das mudanças na estrutura da experiência, para Benjamin, é o divórcio entre o sujeito e sua obra. Contribuem para isso diversos aspectos. Entre eles está desaparecimento da narrativa oral.
É um processo que vem de longe e que acompanha a evolução secular das forças produtivas. A invenção da imprensa favoreceu a difusão do romance e o declínio da tradição oral. Depois, ao colaborar na consolidação da burguesia e instituir uma nova forma de comunicação - a informação - provocou a crise do próprio romance impresso.
Trabalho artesanal
Outro aspecto determinante no processo de privar as pessoas da experiência é a falta de distensão psíquica que se vivencia em função do declínio do trabalho artesanal.
Ninguém mais tece ou fia enquanto ouve uma história. O trabalho industrial inaugurou o estado de atenção. E compõe com a rapidez e a objetividade da notícia um quadro caracterizado pela crescente disponibilidade da memória voluntária.
Marx e Benjamin
O percurso que Benjamin traça para caracterizar o divórcio entre o homem e seu trabalho incorpora elementos da obra de Marx. Mas se diferencia dela quando não vê na evolução do progresso técnico a promessa da libertação.
O que o filósofo observa é um aprisionamento marcado pela vivência do choque, pela redução da imaginação e pela temporalidade do progresso. É a existência de um tempo infernal em que nunca é permitido concluir o que foi começado.
Referências simbólicas
O propósito da imprensa, para Benjamin, é transmitir informações de forma plausível, fatos passíveis de verificação imediata e acompanhados de explicações. A linguagem informativa é marcada pelo ritmo do trabalho mecanizado, pela busca do incessantemente novo.
A notícia se torna obsoleta da noite para o dia. No fim da tarde as folhas de jornal não têm valor algum. O mesmo processo que impossibilita o trabalho artesanal na modernidade, também configura uma nova forma de comunicação e uma nova maneira de o indivíduo homem se relacionar com ela.
A informação não tem a mesma amplitude que o episódio narrado. Este pode ser interpretado e necessita da construção de referências simbólicas para que se incorpore à vida do narrador.
Vida e palavra
Para que a experiência tivesse condições de realização seria preciso existir uma comunidade de vida e de discurso que o rápido desenvolvimento da técnica na sociedade capitalista vem destruindo.
Desapareceu a comunidade entre vida e palavra, própria da atividade artesanal. Esta pratica a narrativa tradicional, quando aquele que conta transmite um saber que seus ouvintes receberão como seu.
Com o declínio de um trabalho e de um tempo partilhados num mesmo universo de prática e linguagem, as inquietações de nossa vida interior adquirem um caráter privado. A memória é invadida pelo tempo da morte da singularidade e pela quase impossibilidade de fazer parte de uma comunidade simbólica.

*Celina Fernandes Gonçalves Bruniera é mestre em sociologia da educação pela Universidade de São Paulo e assessora educacional.

sábado, 27 de novembro de 2010

Literatura oral: Os textos de tradição oral...



Os textos de tradição oral...

Os textos de tradição oral são histórias contadas em voz alta por um narrador a um grupo de ouvintes. Essa é uma tradição que data da Pré-História. Até hoje, nas tribos primitivas da África, da Austrália ou mesmo do Brasil, escutar um narrador contando histórias ainda é um costume comum.

A importância social da narrativa oral, cujas finalidades variam de acordo com as circunstâncias, gerou muitas maneiras de contar uma história. Isso criou vários gêneros de narrativas como o
conto (popular, maravilhoso, de fadas), as fábulas, os apólogos, as parábolas, as lendas e os mitos.

Por meio dessa diversidade de
narrativas, entra-se em contato com ideias que já fazem parte do patrimônio cultural da humanidade. O advento da escrita ajudou a preservar as narrativas da tradição oral, desde as mais remotas, como as do Antigo Egito e da Mesopotâmia, até as mais recentes, como os contos de fadas.

A importância de conhecer essa literatura é ampliar o nosso conhecimento de mundo e da história do homem. Abrir horizontes para o universo cultural da humanidade é um forma de crescer tanto pessoal quanto profissionalmente profissional. Mas, além de conhecimentos, essas histórias - em especial por sua engenhosidade - também entretêm e proporcionam diversão.

sábado, 20 de novembro de 2010

Literatura oral

Literatura oral - Histórias atravessam milênios

As lendas e tradições orais sempre foram contadas de gerações a gerações, desde os tempos da Pré-História. A literatura oral ainda é muito presente nas tribos indígenas e nos povos da África e Austrália, e durante milênios fora a única forma de memorizar fatos e mitos de diversos grupos.
O surgimento da escrita e a oficialização da história humana no planeta, auxiliou o homem a registrar os fatos antes passados oralmente. O escritor francês Charles Perrault foi um dos pesquisadores de tradições passadas oralmente e as transformaram em livros.

Hans Christian Andersen se baseou em muitas histórias orais para compor seus contos infantis. No Brasil, a literatura oral, além das culturas indígenas, também está presente em nosso folclore , o primeiro a imortalizar nossas histórias foi Luís Câmara Cascudo.

A história contada e recontada no decorrer de diversas gerações sofre modificações ao longo do tempo, sem compromisso com a cultura formal. Muitas destas histórias são contadas e adaptadas em contos populares.

Os personagens, na maioria das vezes, são mitológicos ou descritos dentro da simplicidade do homem da sociedade na qual a narrativa é contada. Há também a ocorrência de fatos fantásticos e miraculosos.

sábado, 13 de novembro de 2010

Literatura Popular Tradicional


Literatura popular tradicional

“A designação de Literatura Popular, literatura do povo, associa uma entidade social que as mais das vezes não usa a escrita para representar a sua arte verbal. E, se assim é, o vocábulo literatura, no seu sentido próprio, não serve bem o fenômeno a que se aplica. (...)

Outra designação é a de literatura tradicional. E esta se nos afigura mais desajustada ainda do que as anteriores. Tradicional significa o que é transmitido de geração em geração, o que vem de longe, que tem certa duração no tempo e vai nele vivendo. Teremos, por isso, que eliminar a invenção recente que ainda não passou à voz do povo ou que, por ela passando, com pouca demora se poderá extinguir.

Dizer literatura oral e tradicional é juntar os dois adjetivos sem anular a referida contradição e com exclusão da sua parte escrita.

Mas tornemos à literatura popular que, apesar de sua relativa impropriedade, é a de mais extenso significado e a que prefiro. A locução tem dois sentidos: o de produção literária de eruditos destinada ao povo ou que, sem essa intenção o povo adota - Gramsci até a designa de literatura popular artística - e o de obras literárias de invenção popular.

E escusado dizer que não estamos a pensar em elaboração coletiva. A obra literária é individual, depois, de boca em boca, de tal modo se conforma com o sentir do seu intérprete, que ele a tem como sua. «Mantém-se o tema fundamental, mas os acidentes mudam e, de tal sorte, que quase se pode afirmar que a cada exibição a peça se recria: uma sucessão de variantes em que muitos colaboram, cada um por sua vez, sem lhe pôr assinatura». No longo trânsito por que passa se vai tornando anônima até perder de todo o seu autor de origem.”

Fonte: Manuel Veiga Guerreiro, in Literatura Popular: em torno de um conceito.